Uma equipa de investigadores da Universidade Johns Hopkins descobriu um mecanismo até agora desconhecido que explica como os seres humanos desenvolvem uma visão central de elevada nitidez antes do nascimento. O estudo revela que a interação entre uma molécula derivada da vitamina A e as hormonas da tiroide desempenha um papel determinante na formação da fóvea, a região central da retina responsável pela visão mais precisa. As conclusões foram publicadas na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
A investigação desafia uma teoria aceite há cerca de três décadas. Até agora, acreditava-se que os cones azuis, células sensíveis à luz responsáveis pela perceção das cores, migravam para fora do centro da retina durante o desenvolvimento fetal. No entanto, os cientistas verificaram que essas células permanecem na fóvea e transformam-se gradualmente em cones vermelhos e verdes. Este processo é desencadeado pela diminuição do ácido retinóico, derivado da vitamina A, e pela ação das hormonas da tiroide, permitindo a formação da estrutura especializada necessária para uma visão central nítida.
Para chegar a estas conclusões, os investigadores recorreram a organoides da retina, pequenos tecidos cultivados em laboratório a partir de células humanas, que reproduzem de forma fiel o desenvolvimento da retina. A equipa observou que, entre a 10.ª e a 12.ª semana de gestação, surgem alguns cones azuis na fóvea em formação, mas, por volta da 14.ª semana, estes convertem-se em cones vermelhos e verdes, contrariando a hipótese de que seriam simplesmente deslocados para outras regiões da retina.
Segundo os autores, a descoberta poderá contribuir para o desenvolvimento de novas terapias celulares destinadas a tratar doenças oculares como a degeneração macular relacionada com a idade e o glaucoma. O objetivo passa por aperfeiçoar os organoides da retina para produzir fotorrecetores saudáveis que possam, no futuro, ser transplantados para restaurar a visão de pessoas afetadas por patologias que atualmente não têm cura. Embora esta aplicação clínica ainda esteja distante, os investigadores consideram que o estudo representa um passo importante na compreensão do desenvolvimento da visão humana e no avanço da medicina regenerativa ocular.