O calor extremo está a colocar os sistemas globais de produção alimentar sob forte pressão, ameaçando os meios de subsistência de mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo. O alerta consta de um novo relatório conjunto da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura e da Organização Meteorológica Mundial, que aponta para impactos crescentes das alterações climáticas na agricultura.
Segundo o estudo, o aumento das temperaturas e a maior frequência de ondas de calor já estão a provocar perdas significativas, incluindo cerca de meio bilião de horas de trabalho por ano. A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, sublinhou que o calor extremo atua como um “fator agravante”, intensificando vulnerabilidades já existentes nos sistemas agrícolas.
Os efeitos são visíveis em vários sectores: as culturas agrícolas registam quedas de produtividade acima dos 30°C, enquanto o gado sofre de stress térmico, com impacto na produção de leite e crescimento. Nos oceanos, o aquecimento reduz os níveis de oxigénio, colocando em risco a pesca, e nas florestas aumenta o risco de incêndios e a degradação dos ecossistemas.
O relatório, liderado também pelo diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, destaca ainda casos concretos, como a quebra de 25% nas colheitas de cereais no Quirguistão em 2025 e a redução da produção de soja no Brasil em até 20% nos últimos anos, devido a condições extremas de calor e seca.
Perante este cenário, as agências das Nações Unidas apelam a medidas urgentes de adaptação, incluindo o desenvolvimento de culturas mais resistentes ao calor, melhorias na gestão agrícola e reforço de sistemas de alerta precoce. Defendem também a necessidade de uma transição para modelos com menores emissões, como forma de garantir a segurança alimentar global no futuro.