Investigadores norte-americanos descobriram que o verme Schistosoma mansoni, responsável pela esquistossomose, desenvolveu a capacidade de bloquear os sinais de dor e comichão quando penetra na pele humana. O estudo, publicado no The Journal of Immunology, revela que o parasita suprime a actividade de proteínas nervosas responsáveis pela sensação de dor e pelo disparo das defesas imunitárias, conseguindo infiltrar-se no corpo sem activar os “alarmes” naturais do organismo.
A esquistossomose é uma doença parasitária transmitida pelo contacto com água contaminada, comum em regiões tropicais, que afecta milhões de pessoas em todo o mundo. Normalmente, quando microrganismos invadem a pele, provocam dor ou irritações que activam respostas do sistema imunitário. No entanto, o S. mansoni utiliza moléculas capazes de inibir a proteína TRPV1+, fundamental na transmissão de sinais de dor e na activação de células imunitárias, conseguindo assim sobreviver e estabelecer a infecção sem ser detectado.
Segundo os investigadores da Faculdade de Medicina de Tulane, nos Estados Unidos, a identificação destas moléculas poderá abrir caminho para novas terapias contra a dor, constituindo uma alternativa não opióide para doenças inflamatórias crónicas. Em paralelo, esta descoberta poderá inspirar o desenvolvimento de cremes ou agentes tópicos que ativem o TRPV1+, capazes de prevenir a infecção em comunidades expostas ao parasita através de actividades como nadar, pescar ou lavar roupa em rios e lagos contaminados.
Os cientistas pretendem agora isolar as moléculas produzidas pelo parasita que bloqueiam a actividade nervosa, bem como estudar melhor os mecanismos imunitários que são suprimidos durante a penetração do verme. Para os autores, este é um exemplo claro de como a evolução moldou estratégias furtivas de sobrevivência dos parasitas — e de como esses mecanismos podem ser aproveitados pela ciência para novas soluções em saúde.