UNICEF alerta para mais de 430 mil violações graves contra crianças em conflitos armados desde 2005

A directora executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Catherine Russell, alertou para o agravamento dos riscos enfrentados por crianças em zonas de conflito, revelando que as Nações Unidas verificaram mais de 430 mil violações graves contra menores desde 2005. Só em 2025, foram registadas mais de 38 mil violações. O alerta foi feito a 26 de Outubro, durante uma intervenção no Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Nova Iorque, que assinalou os 30 anos do relatório de Graça Machel sobre o impacto dos conflitos armados nas crianças.

Segundo Russell, o relatório de 1996 contribuiu para colocar a protecção infantil no centro da agenda internacional de paz e segurança. Nas últimas três décadas, foram assinados mais de 40 planos de acção com partes envolvidas em conflitos e mais de 220 mil crianças foram libertadas de forças e grupos armados. Apesar destes progressos, a responsável considera preocupante o aumento das violações, que incluem homicídios, mutilações, recrutamento forçado, violência sexual, raptos e impedimentos ao acesso à ajuda humanitária. Em 2025, os números mais elevados foram verificados no Estado da Palestina, na República Democrática do Congo e na Nigéria.

A responsável destacou igualmente os obstáculos à assistência humanitária, indicando que, desde 2005, a ONU verificou mais de 44 mil incidentes de negação de acesso, dos quais mais de oito mil ocorreram em 2025. No mesmo ano, mais de 70% das vítimas infantis confirmadas foram atingidas por armas explosivas. Estes ataques provocam não só mortes e ferimentos, mas também a destruição de escolas, hospitais, sistemas de abastecimento de água e outras infra-estruturas essenciais. Russell alertou ainda para os riscos associados à utilização crescente de drones armados, inteligência artificial em sistemas de armamento e tecnologias digitais que podem facilitar o recrutamento, a exploração e o abuso de menores.

Durante a intervenção, Catherine Russell recordou o caso de Nahed, uma jovem que tinha 16 anos quando a guerra começou no Sudão. Depois de a família fugir de Cartum em busca de segurança, a aldeia onde se refugiou foi atacada, tendo o avô e o tio da jovem sido mortos e outras raparigas violadas e sequestradas. A directora executiva referiu também a importância do apoio psicológico e social às sobreviventes de violência, alertando que, no Sudão do Sul, mais de um terço dos espaços seguros para mulheres e crianças apoiados pela UNICEF encerrou devido a cortes no financiamento.

Perante este cenário, a UNICEF apresentou três prioridades: exigir que todas as partes nos conflitos previnam as violações e respeitem o direito internacional; reforçar os mecanismos de monitorização, os planos de acção e os recursos destinados à protecção infantil; e intensificar os esforços diplomáticos para prevenir e resolver guerras. Russell defendeu que a ajuda humanitária e os mecanismos de protecção, embora essenciais, não substituem soluções políticas duradouras. A responsável apelou à comunidade internacional para agir de imediato, sublinhando que as crianças afectadas pelos conflitos não podem esperar mais décadas pela protecção que lhes foi prometida.

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