A expansão da inteligência artificial (IA) está a transformar a forma como as pessoas trabalham, comunicam e tomam decisões, levantando preocupações sobre os efeitos da tecnologia nas capacidades cognitivas humanas. Num artigo publicado pelas Nações Unidas, a 1 de Novembro, o neurocientista David Rock alerta que a crescente dependência destas ferramentas poderá enfraquecer o pensamento crítico, a capacidade de análise e o discernimento, caso os utilizadores deixem de exercitar as suas próprias capacidades mentais.
Segundo David Rock, cofundador do NeuroLeadership Institute, apenas entre 5% e 10% dos trabalhadores utilizam a inteligência artificial para reduzir tarefas rotineiras e libertar tempo para actividades intelectualmente mais exigentes. A maioria, pelo contrário, tende a delegar também tarefas de análise, avaliação e tomada de decisões. O especialista considera que esta prática pode provocar uma erosão gradual do julgamento humano, uma vez que o cérebro tende naturalmente a poupar energia e a evitar esforços desnecessários.
Outro dos desafios identificados é a sobrecarga de informação. Os trabalhadores recebem diariamente mensagens, notificações, actualizações e conteúdos produzidos por sistemas de inteligência artificial, muitas vezes em quantidades superiores à capacidade humana de processamento e concentração. Rock defende que o problema já não é a falta de informação, mas a dificuldade em seleccionar, interpretar e avaliar os conteúdos disponíveis, alertando para os limites naturais da atenção e da capacidade de decisão.
O neurocientista manifesta também preocupação com a utilização de chatbots como substitutos das relações humanas. Cada vez mais pessoas recorrem à inteligência artificial para conversar, procurar companhia e obter aconselhamento, uma tendência que, segundo o especialista, poderá aumentar o isolamento social. Algumas investigações apontam para uma associação entre a utilização intensiva de companheiros digitais, sentimentos de solidão e o afastamento das interacções presenciais. Neste contexto, Rock considera que a confiança, a autenticidade e as relações humanas poderão adquirir ainda maior importância à medida que a tecnologia evolui.
Como resposta, o especialista defende o desenvolvimento da metacognição, ou seja, a capacidade de reflectir sobre a própria forma de pensar. Na sua perspectiva, a inteligência artificial deve ser utilizada para questionar ideias, explorar diferentes perspectivas e melhorar a análise, sem substituir a responsabilidade humana na tomada de decisões. O princípio defendido é o de manter o ser humano no controlo da tecnologia, garantindo que os avanços da inteligência artificial ampliam as capacidades cognitivas, em vez de reduzirem o exercício do pensamento crítico.