Fidel Cardoso de Pina, com apenas 32 anos, foi o mais novo deputado a ser eleito para Assembleia Nacional de Cabo Verde, pelo PAICV, nesta última legislatura. O também líder da Juventude deste partido, eleito em 2017 e reeleito em 2022, deu uma entrevista a esta plataforma onde fala do seu percurso, dos jovens na política, da JPAI e do futuro de Cabo Verde.
Na primeira parte desta entrevista, Fidel Cardoso de Pina começa por explicar a sua ligação à política, “não consigo explicar o que atraiu porque a política sempre foi algo intrínseco à minha pessoa e ao meu ser. Sempre tive a paixão pela Política desde pequeno e hoje mesmo os meus colegas não estranham o facto de eu hoje estar na vida política ativa.”
Recorda que desde cedo liderou movimentos estudantis e associativistas e que na sua comunidade sempre esteve na linha da frente das iniciativas comunitárias. No entanto, é também na família que encontra uma forte ligação com a Política, “desde cedo sempre convivi de perto com as grandes questões políticas nacionais, muito por culpa das funções do meu pai que era, e que é, jornalista, e que portanto sempre escreveu para o jornal sobre os grandes temas da atualidade política nacional. Toda a minha família, sempre foi muito ativa e participativa nos temas políticos e partidários.”

Assume que as histórias que “ouvia sobre o Amílcar Cabral, sobre histórias revolucionárias no mundo, sobretudo no continente africano” o levou a convergir para a experiência do associativismo estudantil, do associativismo coletivo, cultural e desportivo e que, por isso, hoje “estou também no partido que se identifica com o Amílcar Cabral, que é sem dúvida, um ídolo para qualquer líder africano e cabo-verdiano.”
E-Global: Há um desligamento dos jovens da política? O que atrai ou afasta os jovens da política?
FCP: É uma pergunta complexa, eu não tenho uma fórmula para lhe responder de forma definitiva. A formação académica pode contribuir para atrair e ou afastar. Muitas vezes há professores que, por exemplo, falam muito mal da política, dos políticos e das políticas, e isto pode criar uma certa “alergia” aos estudantes que se podem afastar da política. O meio também, se as pessoas estão num meio em que as pessoas só criticam, é claro que também de certa forma contribui para afastar os jovens.
“Quando há um conjunto de promessas de campanha que não se cumprem tudo ajuda a não atrair jovens para a política”
Mas o comportamento dos indivíduos numa sociedade depende da estrutura de incentivos vigente, o que significa que só teremos uma juventude ativa, atuante e portadora de conhecimentos se tivermos também incentivos para o efeito. Ou seja, só teremos uma juventude ousada, inovadora, ambiciosa, proactiva e empreendedora, se existirem um conjunto de incentivos de políticas publicas que premeiem o mérito, a inovação, a produtividade e também o empreendedorismo.
E é preciso dizer que aqui, em Cabo Verde, o atual quadro político ou governativo que temos tem caminhado de certa forma no sentido inverso e não há sinais, pelo menos a curto prazo, de que haverão grandes mudanças no futuro e no presente da nossa juventude. E recordo que em Cabo Verde cerca de 64% da população tem entre 15 a 35 anos de idade.
Quando se desmantelam políticas públicas para a juventude, se desmantelam estruturas que no passado tiveram grande peso na afirmação dos jovens e quando há um conjunto de promessas de campanha que não se cumprem, tudo isto ajuda a não atrair jovens para a política.
E-Global: Os jovens são uma base eleitoral muito grande…
FCP: Sim, podemos dizer que são a cifra mais significativa da constituição, enquanto país, de Cabo Verde. E destes, cerca de 50% tem menos de 30 anos, que espelha o quão jovem é a população cabo-verdiana.
É por isso que é preciso, como disse, ter políticas bem direcionadas para essa camada que tem um peso decisivo naquilo que são as decisões, curiosamente, em matéria eleitoral neste país.
E-Global: São os jovens que dão a voz à política ou é a política que dá voz aos jovens?
FCP: Eu acho que são ambas as coisas. Como político podemos ser a voz da juventude, expondo os desafios que enfrenta, uma voz ativa que defende os seus interesses, as suas inquietudes e, sobretudo, medidas políticas que possam resolver efetivamente os seus anseios.
Mas por outro lado, os jovens também podem ser uma voz na política, quando estejam na linha da frente a defender este setor fundamental para o desenvolvimento de qualquer país. Para isso é preciso lá chegar, por mérito é claro ,mas também é preciso que sejam criadas oportunidades para tal, ou seja, é fundamental que tenhamos mais jovens na linha da frente.
Não é a mesma coisa quando um jovem defende os interesses dos jovens, do que quando é alguém que tem uma idade mais avançada a defender os interesses dos jovens. Como se costuma dizer, alguém ouve melhor alguém que seja mais próximo. Não é à toa que numa campanha eleitoral tens um mandatário para a juventude, ou quando num comício se quer dirigir uma mensagem à juventude, se elege um jovem para ser o portador dessa mensagem. Mas isso não significa que outros não se possam também juntar à causa.

Cerca de 60% da população em África tem menos de 25 anos e mais de 50% são mulheres, todavia a média de idade das lideranças em África encontra-se acima dos 60 anos, e tem um único género, masculino. Esta é uma grande derrota que nós devemos sentir como nossa, temos de continuar a alimentar uma cidadania ativa, onde todos têm voz e em particular os mais jovens, ignorados, desvalorizados, muitas vezes ostracizados e afastados dos lugares de decisão.
Não podemos nem devemos deixar apenas nas mãos dos outros o nosso futuro. O futuro é nosso, e eu até costumo dizer que às vezes chateio-me quando dizem que os jovens são o futuro, porque não é isso. Os jovens são o presente, também são o futuro, mas os jovens são o presente.
E-Global: Em relação aos desafios que os jovens cabo-verdianos enfrentam aos dias de hoje, quais são os principais problemas com que estes se deparam?
FCP: São vários, são vários, mas eu vou elencar alguns que podem demonstrar que o nosso contexto é um bocado diferente do resto do nosso continente africano.
O emprego é sem dúvida o maior desafio da juventude cabo-verdiana. Infelizmente temos um mercado que é pequeno, que não consegue absorver toda a mão de obra jovem. O tecido empresarial é muito reduzido e o setor que mais emprega acaba por ser o setor público, de forma direta ou indireta, e não consegue absorver toda a mão de obra jovem, principalmente aquela que é recém formada.
Para além do desemprego, a juventude cabo-verdiana continua apoquentada pela exploração e precariedade laboral, baixos salários e o elevado custo de vida.
Outro desafio, relacionado com este, são os salários baixos e temos outra questão, que é séria e que se vem agravando, que é a precariedade laboral que grassa no país, principalmente nas ilhas do Sal e da Boavista e, principalmente, no setor turístico/hoteleiro. Continuamos a assistir a uma precarização dos empregos, salários baixos, vínculos laborais precários com proliferação de contratos a prazo, prestação de serviço ou estágios profissionais, que às vezes não são estágios são formas de precarização.
O desânimo já tomou conta dos jovens neste país pela falta de oportunidades e por não encontrarem possibilidades de se auto realizarem e materializarem em Cabo Verde os seus sonhos, pelo que a única alternativa tem sido a porta da emigração. Para além do desemprego, a juventude cabo-verdiana continua apoquentada pela exploração e precariedade laboral, baixos salários e o elevado custo de vida, que os impede de alcançar a sua independência e motivam esta saída massiva do país.
Um outro desafio que temos em Cabo Verde é a habitação, particularmente a habitação jovem. Constitui um grande problema, eu diria mesmo que às vezes constitui um pesadelo. As despesas para habituação assumem em regra um dos maiores pesos no orçamento familiar.
Em Cabo Verde nós continuamos a ter esse desafio, o governo não tem conseguido gizar políticas públicas para poder dar acesso aos jovens de condições que lhes permitam ter uma habitação.
É claro que aqui teria que ter muito tempo para explicar quais as políticas que seriam de aplicar, mas de grosso modo as políticas têm falhado. Fala-se muito da bonificação jovem no crédito habitação. Mas, por exemplo, com os contratos precários, de que já falei, qual banco vai dar bonificação a esses jovens? É preciso ter outras políticas, nomeadamente, incentivos fiscais e parafiscais, disponibilização de terrenos, acesso ao solo para construção ou políticas de incentivo à construção assistida. Há vários países que, por exemplo, o Estado tem vários edifícios que coloca à disposição dos jovens para habitação. Também não há políticas para aquilo que é a residência estudantil e aqui também há muito que falar.

Outro desafio em Cabo Verde é o acesso ao ensino superior e profissional. Temos muitos jovens que querem estudar mas que não conseguem porque não têm meios, não têm oportunidades de iniciar ou de continuar os estudos. Essas oportunidades não conseguem chegar a todos. Eu digo isso com propriedade porque sou professor universitário e sou professor do ensino profissional e conheço muito bem essa realidade. E aqui temos um grave problema que é o não pagamento de propinas pelos estudantes. Existe um número significativo de estudantes que têm pendências e dívidas de propinas de um valor enorme, um valor avultadíssimo.
O governo não tem conseguido gizar uma política que dê acesso a oportunidades para todos. Fica-se com sensação de que um jovem no mundo rural ainda tem menos oportunidades do que um jovem que vive nos centros urbanos, ou de que os jovens dos grandes centros urbanos não têm as mesmas oportunidades das ilhas mais periféricas. É uma questão que os próprios jovens nos colocam.
Quando o MpD assumiu a governação a primeira medida que tomou foi revogar a lei de concursos públicos
Outro desafio que gostaria de destacar é a infoexclusão. A infoexclusão no país e nas universidades ainda é um desafio. Temos vários estudantes que não conseguem ter um computador ou dispositivo informático e acesso a largura de banda. A internet em Cabo Verde é cara e o acesso à internet tem tendência a aumentar. O direito à internet deveria ser um direito Constitucional. Qualquer pessoa, qualquer estudante, deveria ter acesso a internet em casa e deveria ter dispositivos e meios informáticos para ter melhores condições para desenvolver as suas atividades académicas.
Vou terminar com um último desafio que tem a ver com a falta de oportunidades e falta de acesso aos altos cargos de administração e gestão da administração pública.
Quando o MpD assumiu a governação a primeira medida que tomou foi revogar a lei de concursos públicos, a primeira medida, em 2016, foi essa revogação. E, por isso, não tem sido possível, à juventude, aceder a oportunidades e de livremente concorrer para um alto cargo da administração pública.
Neste momento, os critérios para o acesso a esses altos cargos, com o atual aparelho governativo do primeiro ministro do MpD, baseiam-se em critérios de simpatia político-partidária e nos laços familiares. O que acaba por ser grave, condiciona a vida dos jovens e até, de certa forma, contribuem para afastar os jovens da política.
Na segunda parte desta entrevista, Fidel Cardoso de Pina fala sobre políticas prioritárias para o futuro dos jovens cabo-verdianas, da JPAI e do seu papel no mundo da política.