Imagem: Pedro Sequeira, escritor de São Tomé e Príncipe. Foto: divulgação/acervo pessoal
O escritor santomense Pedro Sequeira esteve em Portugal entre 19 de agosto e 9 de setembro, numa visita que incluiu encontros literários, contacto com leitores e autores e participação num programa da RTP. Com os romances “Leonor” e “O branco e a preta”, passou pelas feiras do livro do Porto e da Venteira, na Amadora, e participou num Jantar de Poesia.
Em entrevista à Agência Incomparáveis, faz o balanço da viagem e destaca a receção às suas obras, a troca de experiências com outros escritores e a motivação que levou consigo para continuar o trabalho em São Tomé e Príncipe.
Os contactos estabelecidos durante a visita abriram, segundo o autor, possibilidades de cooperação nos campos da edição, da poesia e do teatro. Entre propostas ainda em estudo e contactos que pretende manter, Pedro Sequeira reflete sobre as dificuldades de publicar e sobre o papel destes encontros na circulação da literatura santomense.
Entre 19 de agosto e 9 de setembro esteve em Portugal com uma agenda que passou por diferentes cidades e encontros. Que balanço faz desta passagem pelo país e quais foram os momentos que mais marcaram esta experiência?
Foi enriquecedor e uma injeção de novas energias. Os momentos mais marcantes foram as diferentes participações nos diversos eventos culturais e literários. Tive a oportunidade de visitar pela primeira vez a Feira do Livro do Porto, este magnifico evento literário e cultural, que é organizado num espaço que é um convite a preservação da natureza; a minha participação no Jantar de Poesia em que declamei, tal como outros poetas presentes; a minha presença na Feira do Livro de Venteira, na Amadora, em que vendi alguns livros, conversei sobre as minhas obras literárias com leitores curiosos, conversei com diversos autores, sobretudo com a escritora Sara Timóteo que é uma pessoa fantástica, afável e com uma fonte de energia inesgotável.
Que agenda teve em Portugal? E como foram essas experiências?
Eu tive uma agenda cultural bem rica em Portugal. No dia 28 de agosto eu, ao convite da APP – Associação Portuguesa dos Poetas, participei no “Jantar de Poesia”. O evento foi realizado no Hotel Vila Galé Collection Arcos (Hotel dos Poetas) acompanhado de uma tertúlia. Participei, no dia 29 de agosto, na Feira do Livro do Porto que decorreu nos Jardins do Palácio de Cristal, no Norte de Portugal. Participei, no dia 30 de agosto, na Feira do Livro da Venteira, que se realizou na Avenida Conde Castro Guimarães, na freguesia de Venteira, concelho de Amadora. Participei, ainda, nos estúdios da RTP, no dia 1 de setembro, no programa televisivo “À Tarde no Kubico”. Foram, todas elas, experiências enriquecedoras. Estar com gente da cultura, em particular com pessoas da literatura é sempre gratificante e transformador.
A Feira do Livro do Porto e a passagem por outras feiras colocaram-no em contacto direto com leitores, autores, editores e agentes culturais. Que receção encontrou nestes espaços?
Encontrei uma receção muito calorosa. Há uma espécie de sede para com o que é africano, e, em particular, para com o que é santomense, que ainda é muito, quase que totalmente desconhecido, apesar dos laços históricos, linguísticos e culturais existentes entre Portugal e São Tomé e Príncipe. É talvez algo que eu não devesse dizer, mas confesso que até sinto-me mais especial cá em Portugal em alguns ambientes, mais do que no meu próprio país. Aqui há uma acentuada valorização do escritor e das suas obras.
Que livros da sua autoria trouxe consigo?
Para Portugal, levei dois dos meus romances: “Leonor” (que é o meu primeiro romance, lançado no ano 2016), pela Chiado Editora, e “O branco e a preta” (meu último romance lançado no ano 2025), pela In-Finita Editorial.
Durante esta agenda conheceu também obras, autores e projetos desenvolvidos em Portugal. Que trabalhos despertaram mais a sua atenção e que aprendizagens ou referências leva consigo dessa aproximação ao meio literário e cultural português?
Tive oportunidade de conhecer diversas obras literárias, comprei vários livros para aumentar o repertório literário, conheci vários escritores, alguns que estão a entrar agora para o mundo da literatura enquanto escritores, o que foi bastante gratificante porque podemos trocar lágrimas e sorrisos juntos, falando dos nossos desafios e das nossas caminhadas neste imenso, doce e amargo mundo literário. A grande referência que levo do meio literário cultural português é a valorização da cultura em geral e da literatura em particular. São muitos eventos a serem realizados ao mesmo tempo em diferentes cidades e freguesias, sobretudo no mês de agosto que é, por excelência, um mês reservado às férias das pessoas de uma forma geral. Em todos os eventos literários e culturais há engajamento do poder local, o que revela a sensibilidade que têm para com a cultura advindo da certeza que têm sobre a importância da cultura em geral e da literatura em particular.
Em Lisboa participou num jantar, onde esteve acompanhado pela presidente da Associação Portuguesa de Poetas (APP). Que significado teve esse encontro e que contactos, diálogos ou possibilidades de cooperação surgiram a partir dessa iniciativa?
Sim, participei num jantar onde desfrutei da companhia da presidente da Associação Portuguesa de Poetas, a honrosa presidente Rose Pereira. Foi uma experiência memorável, a presidente é uma pessoa incrível, extraordinariamente simpática. Estar com a presidente de uma organização desta dimensão é sempre algo de muito proveitoso. Ela apresentou-me a diversos participantes do jantar. A minha alegria foi imensa porque nunca tive num ambiente rodeado de tantos poetas. Parecia que tudo era versos – até os manjares que foram deliciosos. Conheci uma escritora que já participou numa obra literária ligada a São Tomé e Príncipe. O jantar funcionou como uma luz; deu-me várias ideias de diversos tipos de eventos literários a serem organizados em São Tomé e Príncipe. No contacto com a presidente abordamos diferentes formas de interações com a APP, tanto de forma individual, como institucional, através da UNEAS – União dos Escritores e Artistas Santomenses, organização da qual faço parte. Ficou estabelecido o contacto permanente com a APP, e ficou ainda aberta a possibilidade de vir a participar nos grandes eventos e iniciativas literárias e culturais que a APP organiza. Fiz o convite para a presidente da APP vir a São Tomé, convite este que foi aceite de bom grado, e ficou a promessa de juntos trabalharmos para a efetivação da mesma visita.
Ao longo destas semanas, que pessoas, instituições ou projetos considera que poderão transformar-se em novas pontes entre Portugal e São Tomé e Príncipe, seja no campo da literatura, do teatro, do Direito, da educação ou da cultura?
Eu tive diversas conversas com vários autores culturais que poderão se transformar em novas pontes entre Portugal e São Tomé e Príncipe. A título de exemplo, a presidente da APP quer firmar uma parceria com a UNEAS, ao ser concretizada aumentaria significativamente as conexões entre os poetas desses dois país e muitas atividades poderão ser realizadas em conjunto. A responsável da editora In-Finita Editorial, Adriana Mayrinck, quer publicar livros de mais autores santomenses, o que iria nos ajudar bastante devido às dificuldades editoriais que, sobretudo, os novos autores santomenses enfrentam para poderem publicar os seus trabalhos. Relativamente ao teatro também temos boas notícias; neste momento temos a Adozia Cristo, que é uma atriz santomense pertencente ao grupo teatral “Demos”, grupo presidido por mim, a fazer uma residência artísticas com o grupo teatral português o Bando. Há fortes possibilidades para que o mesmo grupo possa se deslocar a São Tomé e Príncipe no próximo ano para apresentarem o espetáculo “1001 Noites”, com a irmã santomense em que Adozia Cristo será a protagonista. De salientar que esta mesma peça está a rodar em Portugal numa séria de espetáculos em que esta mesma atriz santomense faz o papel de irmã santomense. Conheci também os organizadores da Feira do Livro da Venteira que manifestaram um grande interesse em realizar as feiras de livros em São Tomé, algo que abracei com carinho e vamos estudar as formas de materializarmos a mesma ideia.
Regressou a São Tomé e Príncipe depois de quase três semanas em Portugal. De que forma esta experiência poderá reverberar no seu trabalho e que novos projetos, livros, iniciativas culturais ou parcerias poderão nascer a partir das conexões construídas durante esta passagem?
De diversas formas. Eu não posso dizer que sou o mesmo, depois de tomar parte destas experiências. Estes contactos com as pessoas e instituições em Portugal deram-me mais motivações para continuar. No meu país, ser escritor não é missão fácil, mas as diferentes conversas com os autores, sobretudo os iniciantes, fizeram-me ver que eu não estou sozinho, que os mesmos também enfrentam imensas barreiras, que o mundo literário é um mundo para os perseverantes- eu sou perseverante, escrever é a minha missão de vida. Em termos de iniciativas culturais também fez-se luz para mim. Podemos realizar atividades mais informais e com nomes menos coloquiais, por exemplo – Jantar de Poesia – com este nome surgiu em mim diversas nomenclaturas para os eventos culturais e literários a serem organizados em São Tomé e Príncipe.
Ígor Lopes