“Festival Literário Conexões Atlânticas”: Antigo presidente de APP defende língua portuguesa como instrumento de união e promoção da paz

Ivo Álvares Furtado, escritor e poeta. Foto: Agência Incomparáveis

O escritor e antigo presidente da Associação Portuguesa de Poetas (APP) Ivo Álvares Furtado defendeu a necessidade de uma maior afirmação internacional da língua portuguesa, considerando que o idioma deve ser encarado como um elemento de coesão entre os países lusófonos e como um instrumento relevante na promoção do diálogo, da diplomacia e da paz entre os povos.

As declarações foram prestadas em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis no âmbito da abertura, no último dia 6 de junho, da terceira edição do “Festival Literário Conexões Atlânticas”, um evento promovido pela In-Finita Editorial, liderado por Adriana Mayrink, e dedicado “à valorização da literatura em língua portuguesa e ao fortalecimento das ligações culturais entre os escritores das diferentes geografias da lusofonia”. Uma iniciativa que teve lugar na sede da APP, em Lisboa.

O festival, que se realiza entre junho e novembro de 2026, conta com o apoio da Agência Incomparáveis, além da parceria institucional da APP, com sede em Lisboa, e da União Europeia de Escritores em Língua Portuguesa, em Paris.

Ao regressar às instalações da Associação Portuguesa de Poetas, instituição que presidiu nos últimos anos, Ivo Furtado não escondeu a satisfação por reencontrar um espaço que marcou o seu percurso associativo e cultural.

“É um prazer enorme porque deixei a casa em boas mãos”, frisou.

Este escritor sustentou que a sua principal sensação é a de “satisfação” por “ver uma casa arrumada, uma casa bem estruturada, preparada para perpetuar e desenvolver o trabalho que foi feito pelos seus antecessores”.

Segundo assinalou, o trabalho continua a promover “a língua portuguesa, a amizade, a fraternidade e a cultura de um grupo que é unido por esta língua tão valiosa e falada por quase 300 milhões de falantes no mundo”.

Questionado sobre os debates em torno do reconhecimento do português como língua oficial das Nações Unidas, Ivo Álvares Furtado considerou que o principal obstáculo não reside na relevância do idioma, mas sim na falta de vontade política. Na sua perspetiva, “falta o empenho e a sensibilização dos decisores políticos”.

Ivo recordou ainda o peso demográfico da língua portuguesa, salientando que é “falada maioritariamente no hemisfério sul, que é um local onde potencialmente haverá muito maior número de falantes nas próximas décadas”.

Para o nosso entrevistado, esta realidade assume importância “do ponto de vista geral, mundial e, até mesmo, do ponto de vista diplomático”.

Nesse contexto, argumentou que “a promoção da paz, penso que, através da língua e da nossa língua, nós podemos fazer muito trabalho nesse sentido”.

Confrontado com as diferenças existentes entre as variantes do português faladas nos diversos países lusófonos, o escritor rejeitou qualquer visão fragmentada do idioma.

“Penso que não é uma dificuldade”, assegurou, já que, na sua visão, os avanços recentes no estudo do léxico comum da lusofonia reforçam precisamente a riqueza dessa diversidade.

“O lançamento do léxico da língua portuguesa em termos de mapeamento desse léxico e de tradução disso em nível de literatura contribui para uma mais-valia de uma língua que está sempre a renovar”, observou.

Para Ivo Álvares Furtado, “a língua é una, simplesmente tem diversos contributos de vários países e a língua vai evoluindo nesse sentido”.

Partindo dessa visão, apelou à valorização da multiculturalidade como fator de fortalecimento da lusofonia.

“Nós temos que pensar em coesão na diversidade, a prática efetiva da multiculturalidade, porque é assim que nós progredimos”, salientou.

Alertando para os riscos das divisões, acrescentou que “se vamos promover divisões nós não temos a força, perdemos a força que nós deveríamos ter”. Por isso, avançou que “nós temos que seguir um caminho da aceitação, da diversidade, da promoção, da aproximação com base neste elemento valioso de união”.

O escritor foi ainda mais longe, ao defender que essa união beneficia não apenas os países lusófonos, mas o próprio equilíbrio global.

Segundo assinalou, a contribuição dessa aproximação é relevante “para o equilíbrio mundial” e representa uma mais-valia “até mesmo para a riqueza mundial, pela interferência do PIB”.

Sobre se os falantes de português têm feito o suficiente para afirmar internacionalmente a sua língua, Ivo mostrou-se confiante no caminho que tem vindo a ser percorrido.

“Penso que não, porque a informação chega às pessoas”, comentou, referindo-se à ideia de que a comunidade lusófona esteja excessivamente silenciosa nesta matéria. Ainda assim, reconheceu que existe trabalho a desenvolver.

“Falta é o momento certo para que as coisas se tornem realidade”, ponderou.

Nesse sentido, reiterou que “devemos continuar no sentido de chamar a atenção para a importância e, naturalmente, que chegaremos a essa fase”.

“Sentir Angola, 50 anos após a Dipanda”: Um livro nascido da experiência angolana

Durante o “Festival Literário Conexões Atlânticas”, o escritor apresentou também a sua mais recente obra, “Sentir Angola, 50 anos após a Dipanda”, publicada no contexto das comemorações do cinquentenário da independência angolana. Ao explicar a génese do livro, revelou que o trabalho nasceu da necessidade de prestar homenagem a um país que marcou profundamente a sua vida.

“O livro traduz uma homenagem a um país que comemorou, tal como os outros, na maioria dos países de língua portuguesa, o cinquentenário da sua independência”, explicou, recordando os anos vividos em Angola, além de destacar a influência decisiva dessa experiência no seu percurso pessoal.

“Com a vivência que eu tive de vários anos em Angola, cerca de duas décadas, que foram marcantes na minha vida, achei que era importante dar um contributo de amizade transmitida, num momento certo, da comemoração dos 50 anos”, disse.

De igual modo, o autor esclareceu que a nova publicação não constitui um mero retrato geográfico do país.

“Este livro não é tanto uma descrição, digamos que, de lugares, porque já foram apresentados num outro livro, que é ‘A Língua Portuguesa que nos une’, uma obra que segue o meu percurso e este vem na sequência do anterior, mas agora mais focado para Angola”, esclareceu.

Ao justificar a escolha de Angola como tema central da obra, assumiu a dimensão afetiva dessa ligação: “Angola moldou a minha maneira de ser e de sentir”.

O escritor revelou ainda que o livro possui “um sentido contemplativo, um pouco, talvez, nostálgico”, procurando transmitir “um abraço a um país onde eu tenho muitos amigos”.

A publicação aborda igualmente outras dimensões da realidade angolana. Segundo partilhou, a obra permite “falar também do clima, da natureza, dos usos e costumes, do amor, das línguas nacionais e do seu contributo”.

Num dos momentos mais emotivos da entrevista, resumiu o seu sentimento em relação a Angola através de uma declaração particularmente expressiva.

“Angola tem tudo”, sintetizou, confessando que mantém o desejo de regressar ao país africano.

Ao mesmo tempo, reconheceu “a força do destino que faz com que Angola, um país de grande importância a nível mundial, tenha um papel privilegiado da relação com Portugal”.

Na perspetiva do escritor, a obra representa igualmente “um abraço do coração para Angola neste momento dos 50 anos da sua independência”.

Relativamente ao significado pessoal de poder proporcionar esse gesto simbólico através da literatura, respondeu com humildade: “Penso que não seria o único, mas não tenho sequer esta pretensão”.

Ainda assim, deixou uma reflexão que sintetiza a sua visão sobre o contributo individual para causas coletivas.

“Uma gota no oceano faz o oceano”, finalizou.

Ígor Lopes

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