Pedro Sequeira: “O ambiente atual reinante em Portugal relativamente à literatura lusófona revela ser muito benéfica para os escritos da lusofonia”

Portugal prepara-se para mais uma temporada marcada por feiras do livro, festivais literários, apresentações de obras e encontros dedicados à promoção da língua portuguesa, consolidando-se como um dos principais espaços de afirmação da literatura lusófona. Num momento em que escritores de diferentes países partilham experiências, reflexões e projetos, a circulação de autores entre as várias geografias da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa reforça o diálogo cultural e amplia o alcance da criação literária contemporânea.

Entre as vozes que têm contribuído para este universo encontra-se Pedro Sequeira, escritor de São Tomé e Príncipe, cuja obra explora temas como a identidade, as relações humanas, a condição feminina e o quotidiano santomense. Com um percurso que cruza a literatura, o direito, a docência e o teatro, o autor construiu uma narrativa assente no realismo e na observação da sociedade, tendo publicado romances como “Leonor”, “Nós Temos Sonhos”, “As Curvas da Vida” e “O Branco e a Preta”.

Numa altura em que a agenda literária portuguesa ganha novo dinamismo e abre espaço para o encontro entre autores da lusofonia, a nossa reportagem conversou com Pedro Sequeira sobre o seu processo criativo, a evolução da literatura em São Tomé e Príncipe, o papel dos livros num contexto internacional marcado por desafios sociais e humanos, bem como os projetos que prepara para os próximos tempos. Nesta entrevista, o escritor partilha ainda a sua visão sobre a importância dos eventos literários na aproximação entre culturas e na valorização da língua portuguesa como património comum de milhões de falantes.

A literatura lusófona atravessa atualmente um período de intensa atividade em Portugal, por exemplo, com festivais, feiras do livro, encontros literários e debates culturais. Como observa este momento e de que forma pretende integrar-se nessas iniciativas ao longo de 2026?

O ambiente atual reinante em Portugal relativamente à literatura lusófona revela ser muito benéfica para os escritos da lusofonia. É um ambiente que podemos até dizer que servirá para criarmos, se assim podemos chamar, “família dos escritores lusófonos”. É um ambiente que nos aproxima, e nos estimula. Um escritor alimenta-se também dos outros escritores, e nada melhor do que estarmos entre os nossos pares para nos sentirmos inspirados, motivados, e, até certo ponto, impulsionados a continuar a escrever. Estes festivais, essas feiras, esses encontros literários e esses debates culturais servem-se de energias para nós os escritores, reforçam os nossos compromissos com a humanidade, e dá-nos a certeza da importância das vozes dos nossos trabalhos, e da diferença que fazemos, enquanto escritores. Por mais que haja escritores, cada um é particularmente insubstituível, foi esta sensação com que fiquei quando participei na 95º Feira de Livro de Lisboa no ano passado, onde fiz o lançamento do meu mais recente livro: “O branco e a preta”, de género romance. Queira Deus que este rico e empolgante ambiente literário reinante neste momento em Portugal dure, e cresça ainda mais.

O seu percurso cruza direito, docência, teatro e literatura. Como nasce o seu processo criativo e de que forma as experiências sociais e humanas de São Tomé e Príncipe influenciam a construção das suas personagens e narrativas?

Os meus primeiros escritos foram as cartas de amor que comecei a escrever ainda na adolescência, para os meus amigos (todos eles alguns anos mais velhos do que eu). Felizmente, ainda fiz parte da geração que escrevia “cartas de amor”. Pouco tempo depois, também o meu coração começou a bater mais forte por colega do décimo ano, nesta altura comecei a escrever os meus primeiros versos. Já depois de ter terminado o décimo primeiro ano, fui estudar o curso bacharel em Línguas e Literaturas Modernas, no antigo ISP – Instituto Superior Politécnico. Nesta altura, comecei a escrever sonetos e mais outros poemas soltos, inspirados sobretudo em Camões, Marcelo da Veiga, Marcelo Caetano, Herculano Levy e alguns escritores africanos. A cabra come aonde está amarrada, e como eu estava amarrado aos ensinamentos sobre esses escritores, estão escrevi, inspirando-me neles.

A minha experiência relativamente à leitura dos romances foi uma experiência talvez tardia. Eu não cresci no meio de livros. Já quando eu estava a fazer o curso de licenciatura em Direito que uma colega de turma na altura deu-me um livro emprestado, lembro bem o que ela me disse: “É um romance… é um livro que diz que Jesus Cristo teve filho…”. Tratava-se do Código Da Vinci do escritor Dan Brown. Durante a leitura, fiquei nos céus – foi uma leitura que abriu o véu da minha mente – “Se isto é romance, eu gostaria de escrever algo assim!”. Até aquele momento, eu tinha a tacanha ideia de que romances eram livros de beijos e flores; de longe que não eram. Desde àquela altura, estávamos no ano 2006-2007, havia sido lançada em mim uma semente de escritor, que ficou por lá à espera do momento certo para brotar. Brotou em 2016 quando escrevi o meu primeiro romance “Leonor” (nome da minha mãe, e uma espécie de homenagem às mulheres santomenses). Leonor tinha qualidades que vi em minha mãe (grande parte delas), e que gostaria que a mulheres santomenses tivessem, não sendo possível todas, pelos menos grande parte delas. Tal como aconteceu com a Leonor, todos os meus personagens são construídos com bases nas experiências sociais e humanas, para o bem e para o mal.

As suas obras apresentam diferentes olhares sobre sociedade, identidade e relações humanas. Como define o seu estilo literário e quais são os temas que mais o desafiam enquanto escritor?

Se eu tivesse que determinar um estilo literário enquanto escritor, seria o realismo. O quotidiano está sempre presente nos meus escritos. O mundo feminino é muito atrativo, por isso que os temas ligados a este mundo são mais desafiantes. E, parece que é um mundo infinitamente rico, do tipo quanto mais se sabe mais há para saber, nunca há uma única história, cada mulher é uma mulher, tanto é que por mais que possamos desenhá-la, haverá aspetos bons e maus que sempre são deixados de fora. É sempre um desafio construir as personagens femininas, mas, por outro lado, é a parte mais empolgantes no que concerne à construções dos meus personagens.

São Tomé e Príncipe tem vindo a afirmar novas vozes culturais e literárias nos últimos anos. Como avalia a evolução da escrita, da leitura e da valorização dos autores no país, sobretudo entre os jovens?

Na verdade, estamos mais a perder do que a ganhar; num intervalo de tempo muito curto perdemos umas grandes vozes literárias: em dezembro de 2025 perdemos o escritor Francisco Costa Alegre, e, agora, em Maio perdemos a Conceição Deus Lima que é a nossa maior voz literária de atualidade enquanto poetisa, cronista e dramaturga. Por tudo isto, temos mais motivos para chorar do que para sorrirmos. É verdade que tem vindo a surgir algumas vozes, mas nada de dimensão das vozes que temos estado a perder. Por outro lado, a questão de valorização dos autores no país é algo que devemos lamentar profundamente. O país ainda é muito incipiente neste sentido. Tem faltado várias iniciativas neste sentido, mas, apesar disto, abraçamos a missão de não desistirmos; temos o dever de acreditarmos nos dias melhores, tal como disse a Conceição Deus Lima “quanto tempo levará, não sei. Provavelmente não estarei cá, talvez esteja. Eu gostaria de estar”. partilho com ela este desejo – eu gostaria de estar cá no dia em que aumentará significativamente as iniciativas tendentes a valorização dos escritores jovens, e dos escritores de uma forma geral.

Num contexto internacional marcado por conflitos, tensões sociais e inquietações humanas, que papel pode a leitura desempenhar na vida das pessoas? O que deve um leitor procurar nos livros para amenizar as dores do mundo?

Os leitores devem procurar nos livros alguma razão para manterem a esperança em dias melhores. Os leitores devem procuram nos livros as ferramentas que fazem-lhes ganhar a consciência de que o nosso mundo é um mundo de bem e mal, e que quase sempre, sobretudo no final, nas maioria dos finais, o bem vence o mal.

Esta necessidade dá a literatura outras responsabilidades – alguns estragam o mundo, e nós escritores, enquanto amantes da humanidade e do que é humano, é que temos que abraçar esta missão de o concertar, talvez porque sabemos que se o mundo conhecer o seu fim, a literatura não sobrará, porque ela é feita com a humanidade, e pela humanidade.

Que novos projetos literários estão atualmente em desenvolvimento? Há novos livros previstos para publicação ou participação em eventos internacionais ligados à literatura e à lusofonia?

Tenho um novo romance que acredito que estará pronto ainda este ano. Poderá não estar disponível, porque possivelmente participarei com o mesmo num concurso literário em que os resultados sairão somente no ano 2027. Tenho alguns convites para participar em eventos internacionais ligados à literatura, todavia alguns deles, como não vivo em Portugal, torna-me difícil estar presente – como sabemos, nem todos os convites nos pagam os bilhetes de passagens – mas eu tenho sempre imenso prazer em participar nos eventos literários internacionais.

Para os leitores portugueses e da diáspora lusófona que acompanham o seu trabalho, quais são os livros já editados que considera fundamentais para compreender o seu percurso literário e a sua visão sobre o mundo contemporâneo?

Todos os meus livros têm um pouco de mim, pelo que considero que todos eles podem cumprir esta missão, assim digo aos leitores que leiam “Leonor”; “Nós temos sonhos”; “As curvas da vida” e “O branco e a preta”, que são os meus quatro romances já publicados. Devo salientar que já participei ainda em várias coletâneas de poesias e de contos, publicados em vários países: Portugal, Brasil, Angola e Moçambique.

O que podem esperar do “Pedro” enquanto escritor nos próximos tempos?

Peço aos meus leitores que não tenham preocupações para com os dias de amanhã, deixem que cada tempo venha com os seus próprios produtos, mas fica a promessa minha de sempre buscar vos agradar.

Ígor Lopes

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