O escritor e pesquisador brasileiro Carlos Eduardo Drummond, apresentou, no dia 9 de maio, no Auditório da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, Brasil, o livro “Tempos Modernos – o Rio metrópole, a Exposição de 1922 e a Incrível história do Palácio que desapareceu durante a Ditadura Militar”.
Um numeroso público marcou presença para conhecer mais uma obra do autor já consagrado no Brasil. No âmbito da sua pesquisa literária, que durou três anos, o autor explica os contornos que levaram à demolição de um ex-libris da arquitetura e da cultura carioca e brasileira, uma decisão influenciada pela Ditadura na qual o país estava “mergulhado” nessa altura.
O livro, editado pela Litteris, percorre um arco de tempo partindo da aquisição do território da Louisiana — comprado pelos Estados Unidos da América à França, em 1803, — e vai até a polémica demolição do Palácio Monroe, no Rio de Janeiro, em 1976, lançando luz sobre muitos eventos históricos entre uma ponta e outra, no Brasil e no mundo.
Ao longo dos 12 capítulos e 296 páginas, são contados os episódios que remontam ao Rio de Janeiro, no início do século XX, em pleno processo de modernização da cidade, com as obras da grande reforma urbanística do prefeito carioca Pereira Passos, designadamente o referido Palácio Monroe, que ganhou o seu definitivo nome em homenagem ao presidente norte-americano James Monroe, idealizador da famosa doutrina “A América para os americanos”.

“Junto-me ao coro daqueles que não se conformam com a demolição do Palácio Monroe”
Em declarações à nossa reportagem, Carlos Drummond explicou que “a ideia do livro nasceu em 2007, quando cursava uma Pós-Graduação em Relações Internacionais. O primeiro ímpeto foi escrever um livro sobre o Barão do Rio Branco”.
“Anos depois, essa ideia foi abandonada e, no lugar dela, cresceu o desejo de pesquisar sobre o período fascinante abordado no livro, que inclui a tradição de montar grandes exposições, saída do período industrial europeu e norte-americano, além da própria experiência brasileira de 1922 e, sobretudo, a indigesta demolição do Palácio Monroe”, contou o escritor.
“Eu sempre me encantei pelo universo das grandes exposições. Ao mesmo tempo, junto-me ao coro daqueles que não se conformam com a demolição do Palácio Monroe. Abordar tudo no mesmo contexto, com uma clara correlação entre os temas relacionados, é um dos grandes méritos do livro. Especialmente o caso do Monroe é um tema que precisa ser lembrado de forma permanente. Mais do que ser lembrado, o erro pela demolição do Palácio precisa ser reparado. As gerações vêm sendo privadas desse bem público de imenso valor histórico e ninguém até hoje realizou qualquer compensação,” prosseguiu Carlos Drummond.
“Em algum momento, esse Palácio precisa ser reconstruido”, defendeu o escritor, sublinhando que percebeu, na sua pesquisa, “que não daria para contar a história do Palácio Monroe sem voltar no tempo para explicar a origem das Exposições Universais, as grandes vitrinas da modernidade que vinham sendo montadas na Europa e nos EUA, numa época em que o Brasil ainda não se tinha convertido em República, tampouco abolido totalmente a escravidão no seu território.”
A existência do Palácio Monroe insere-se nesse contexto, pois a sua primeira versão serviu de Pavilhão Oficial do Brasil na Exposição Universal de Saint Louis (EUA), em celebração ao centenário da compra do território da Louisiana, onde recebeu um prémio.
Carlos Drummond salientou que o livro demorou cerca de três anos para ser finalizado, de 2019 a 2021, já que a investigação exigiu o rastreamento de documentos raros, em instituições de pesquisa e memória, no Brasil e no estrangeiro. Uma representante do Bureau International des Expositions (Paris – França) e o presidente da 1904 World’s Fair Society (Saint Louis – EUA) foram alguns dos colaboradores, além do norte-americano Jerry Miller, colecionador de itens da Feira de Saint Louis, que forneceu uma foto da sua coleção que está no livro.
Esmiuçar a farta documentação oficial produzida na época
O escritor deparou-se com vários desafios, como “as pesquisas durante a Pandemia, com as muitas restrições impostas na sociedade”. “Mas o resultado valeu a pena”, assegurou. “Além de sustentar os factos narrados ao longo dos capítulos, o montante apurado enriqueceu o conteúdo do livro com informações curiosas e consistentes, além de uma rica iconografia (por volta de 150 imagens), que inclui fotos raras, como a série da construção do Pavilhão Brasileiro em Saint Louis, localizada nos EUA, com ajuda dos norte-americanos.”
“Outro importante achado da pesquisa saiu do mergulho no arquivo Geisel, da Fundação Getúlio Vargas. Uma das atas das reuniões confidenciais do início dos anos 1970 revela que o presidente brasileiro Geisel fomentou uma campanha secreta, nos jornais da época, para criar artificialmente na opinião pública o desejo de demolir o Palácio Monroe. Mais uma herança funesta da Ditatura que vem a público no ano em que o golpe completa 60 anos,” acrescentou.
O autor afirma que, sobre as novidades que o trabalho apresenta ao público, destacam-se a história do Palácio Monroe e o rico contexto histórico em que estava inserido.
“Revelo também fotos inéditas da construção do Pavilhão Brasileiro em Saint Louis (1903-1904) que foi a primeira versão do Palácio. Acerca da demolição, além de contar os debates intensos ocorridos nos bastidores, revelo uma informação crucial para que constatemos que a demolição do Palácio foi uma ilegalidade: a criação de uma campanha artificial por parte do Governo Geisel, com a conivência da imprensa da época, visando fomentar no imaginário da população que o Palácio deveria ser demolido. A cópia da ata da reunião confidencial sobre o assunto, localizada nos arquivos Geisel da Fundação Getúlio Vargas, é reproduzida no livro. Pautas raciais também são abordadas na obra, como a “Revolta da Chibata” e as muitas demonstrações de preconceito da elite mundial durante as Exposições Universais que, em tese, deveriam celebrar uma modernidade para ser desfrutada por todo mundo, em todos os sentidos”, revelou Drummond.
Segundo o historiador João Daniel Almeida, que apresentou o livro no evento na cidade maravilhosa, em maio, “Carlos Eduardo Drummond reconstrói a história das Exposições Universais, desde 1851, em Londres, até 1922 no Rio de Janeiro, sem deixar de lembrar que, concomitantes às exposições, ocorriam até mesmo olimpíadas”.
Segundo apurámos, a editora está a preparar uma programação para a apresentação da obra e do autor em futuras feiras literárias. São Paulo é um dos destinos na lista de futuras possíveis apresentações. Enquanto isso, a obra pode ser comprada em www.litteriseditora.com.br, uma versão e-book estará disponível, em breve.
“O livro cumpre o que promete. As muitas especulações e lendas que envolvem a história do Palácio Monroe são esclarecidas ao longo da obra, sobretudo no capítulo 12 (Monroe – a derrota), que é o momento mais dramático do livro. Nele, revelo nomes de heróis e vilões dessa história, e conto, em detalhe, todo embate ocorrido nos bastidores que culminou com a infeliz demolição do Palácio Monroe. Além disso, revele informações inéditas de movimentos realizado nas “sombras” que tinham o objetivo de legitimar algo que a população jamais aprovaria”, finalizou Drummond.

O percurso do autor
Além de escritor, Carlos Eduardo Drummond é também poeta e compositor, com grande ligação ao samba brasileiro e carioca. Trabalha na Fundação Nacional de Artes, uma entidade do governo brasileiro ligada ao Ministério da Cultura, e é conhecido também por ser autor do livro “Caetano – Uma biografia”, escrito em parceria com Márcio Nolasco. Um trabalho lançado em maio de 2017, sobre a vida e obra de Caetano Veloso, o mais “Doce Bárbaro dos Trópicos”, lançado no Rio de Janeiro, tornando-se na primeira biografia não-autorizada no Brasil, depois da decisão da Suprema Corte do país.
Entre outros prémios literários, conquistou em 1996 o primeiro lugar no “Concurso Nacional de Contos e Poesias Poeta Nuno Álvaro Pereira”, da Editora Valença.
Em setembro de 2023, por iniciativa do vereador Vítor Hugo, recebeu da Câmara dos Vereadores da Cidade do Rio de Janeiro, uma “Moção de Congratulações e Aplausos”, pelos relevantes serviços prestados à população do Rio de Janeiro, em prol da arte e da cultura do Samba.
Ígor Lopes