Na sexta-feira, 19 de setembro, o Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil completou 35 anos, oferecendo atendimento gratuito e universal a cerca de 76% da população brasileira. Criado a partir da Constituição de 1988 e regulamentado pela Lei nº 8.080/1990, o sistema realiza, em média, 2,8 bilhões de atendimentos por ano e atua em áreas como atenção básica, vacinação, transplantes, emergências e vigilância sanitária em todo o território nacional.
O SUS surgiu do movimento da 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986, e foi formalizado na Constituição de 1988, que definiu a saúde como direito de todos e dever do Estado. Antes de sua criação, apenas trabalhadores formais tinham acesso garantido a serviços públicos de saúde, beneficiando cerca de 30 milhões de pessoas. Atualmente, 76% da população depende exclusivamente da rede pública para atendimento médico.
O sistema atende usuários em unidades básicas de saúde, hospitais, unidades de pronto atendimento e por meio de programas como a Estratégia Saúde da Família (eSF), lançada em 1994. Essa estratégia leva cuidados médicos a regiões urbanas, rurais, fluviais e territórios indígenas, promovendo prevenção, diagnóstico e tratamento em locais de difícil acesso.
O Programa Nacional de Imunizações (PNI), considerado o maior da América Latina, disponibiliza 48 imunobiológicos, incluindo 31 vacinas, 13 soros e quatro imunoglobulinas. O programa foi decisivo para a erradicação da poliomielite em 1994, a recertificação do Brasil como país livre do sarampo e a oferta pioneira de vacinas contra a dengue.
“Aqui na Unidade Básica de Saúde fiz meu pré-natal, recebi todas as vacinas e meu filho nasceu com segurança. Hoje, sei que posso contar com o SUS quando ele adoece”, relata Ana Célia dos Santos, técnica de enfermagem em São Raimundo Nonato (PI).
O Brasil possui a maior rede pública de transplantes do mundo. Em 2024, foram realizados 30 mil procedimentos, todos gratuitos, incluindo o fornecimento de medicamentos imunossupressores. O SUS também oferece tratamentos de alta complexidade, como quimioterapia e procedimentos especializados em hospitais da rede pública.
Robério Melo, de 52 anos, recebeu um transplante de fígado em 2017: “Eu renasci. O SUS me devolveu a vida. Hoje dedico minha trajetória a mostrar que doar órgãos é doar vida.”
Emergências e crises de saúde
O sistema atua em desastres e epidemias por meio de equipes de emergência, hospitais de campanha e apoio psicossocial. Durante a pandemia de Covid-19, a atenção primária foi fundamental para atender diferentes regiões. Outras ações recentes incluem a resposta às enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, e à crise de saúde na Terra Yanomami, em 2023, que registrou redução de 33% no número de óbitos em dois anos.
O SUS desempenha papel na vigilância sanitária, garantindo a qualidade de alimentos, da água destinada ao consumo humano e de produtos de saúde, além da saúde de animais e da regulação de medicamentos. Suas ações se estendem a portos, aeroportos e programas de telessaúde, que reduziram em até 30% o tempo de espera por atendimento especializado em seis áreas estratégicas: oncologia, cardiologia, ginecologia, ortopedia, oftalmologia e otorrinolaringologia.
O SUS disponibiliza mais de 800 itens, entre medicamentos e insumos, listados na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename), publicada em 2022. Parte dessa demanda é atendida pela indústria farmacêutica brasileira por meio de licitações públicas. Entre agosto de 2024 e julho de 2025, a Prati-Donaduzzi forneceu cerca de 7 bilhões de doses ao sistema, representando aproximadamente 20% do faturamento da empresa.
Desafios contam com a atenção das autoridades
Apesar dos avanços, o SUS enfrenta desafios como longas filas de espera, gargalos de financiamento e necessidade de modernização. Para reduzir o tempo de espera, o Ministério da Saúde lançou o programa “Agora Tem Especialistas”, com foco em áreas estratégicas e expansão da telessaúde. A gestão federal também busca fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, com meta de produzir, em até dez anos, 70% das necessidades do sistema em medicamentos, equipamentos e vacinas internamente.
Programas como Mais Médicos, que dobrou de tamanho desde 2023, e Farmácia Popular, que beneficiou 22 milhões de pessoas no último ano com 41 medicamentos gratuitos, contribuem para reforçar a estrutura do sistema e ampliar o acesso à saúde no país.
Ígor Lopes