A campanha presidencial brasileira entrou numa nova fase depois de Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), e Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), terem avançado para a segunda volta das eleições, marcado para 25 de outubro. Com 99,99% das urnas apuradas, Flávio terminou a primeira volta com 56,1 milhões de votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula somou 53,9 milhões, ou 45,16%. A diferença de 1,87 ponto percentual colocou os dois candidatos numa disputa em que alianças, mobilização territorial e capacidade de reduzir a abstenção passaram para o centro da estratégia eleitoral.
O resultado alterou também a posição de partida das duas campanhas. Flávio Bolsonaro chegou à segunda volta depois de liderar em quatro das cinco regiões brasileiras, com vantagem no Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte. Lula manteve o melhor desempenho no Nordeste, onde alcançou 63,8% dos votos válidos. Flávio venceu em 14 estados e no Distrito Federal, enquanto Lula liderou nos restantes estados, com diferenças territoriais que deverão orientar as deslocações, os palanques e a comunicação eleitoral nas próximas semanas.
A primeira batalha ocorre na procura dos cerca de 9,3 milhões de votos atribuídos aos candidatos que ficaram fora da segunda volta, que envolve um contingente ainda maior: os 33,4 milhões de eleitores que não compareceram na primeira volta. A abstenção atingiu 21,08%, e no Nordeste cerca de oito milhões de eleitores ficaram fora da votação, tornando a mobilização neste território uma das prioridades da campanha de Lula. Flávio, por sua vez, procura absorver uma parcela relevante do eleitorado dos candidatos de direita eliminados.
Neste início de segunda volta, Flávio Bolsonaro avançou mais rapidamente na obtenção de apoios formais. A Federação União Brasil-PP confirmou apoio à sua candidatura e o Republicanos encontra-se em processo de articulação para definir uma posição semelhante. O Podemos também prepara uma definição favorável ao candidato do PL. O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, assumiu um papel na aproximação entre Flávio e dirigentes partidários, nomeadamente do Republicanos.
Outro apoio com peso político veio de Ronaldo Caiado. Depois de disputar a Presidência pelo PSD e terminar fora da segunda volta, o ex-governador de Goiás declarou apoio a Flávio Bolsonaro, apesar de o PSD ter decidido deixar os seus filiados livres para escolherem o candidato que pretendem apoiar. Romeu Zema, do Novo, já tinha afirmado que estaria do lado contrário ao PT na segunda volta, embora inicialmente sem anunciar nominalmente apoio a Flávio.
O ex-presidente Michel Temer, do MDB, também anunciou apoio a Flávio Bolsonaro, num gesto individual que não representa uma decisão nacional do partido. O MDB decidiu manter neutralidade na eleição presidencial e permitir que os diretórios estaduais e as suas lideranças façam escolhas próprias. Esta fragmentação torna o partido um espaço de disputa entre as duas candidaturas, com setores historicamente próximos de Lula em algumas regiões e outros mais alinhados com Flávio.
Nem todos os antigos candidatos decidiram entrar na campanha. Augusto Cury, do Avante, afirmou que não apoiará nenhum dos dois finalistas. Renan Santos, do Missão, indicou que não fará campanha por qualquer candidatura e deixou os seus eleitores livres.
Lula, por sua vez, iniciou a segunda volta com uma revisão da estratégia depois de terminar atrás de Flávio. A campanha pretende intensificar a presença no Sudeste e Sul, melhorar a coordenação da comunicação e aumentar a mobilização nas redes sociais. Entre as figuras chamadas para reforçar a atuação digital encontram-se parlamentares com forte votação e grande presença online, numa tentativa de aproximar públicos mais jovens e aumentar o alcance das mensagens da campanha.
O presidente mantém uma base de apoio formada pelo PT e pelos partidos que integraram a sua coligação, além de governadores e lideranças regionais. Dos 20 governadores eleitos na primeira volta, cinco apoiaram Lula, todos no Nordeste, enquanto dez estavam alinhados com Flávio. Nos Estados onde haverá segunda volta para governador, Lula dispõe de palanques diretamente identificados com a sua candidatura, como o de Cadu Xavier, no Rio Grande do Norte, além de apoios noutras disputas estaduais.
A distribuição regional dos votos coloca São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro entre os territórios prioritários. Flávio conseguiu vantagem expressiva em São Paulo na primeira volta, abrindo uma diferença superior a três milhões de votos sobre Lula. Minas Gerais e Rio de Janeiro também integram a equação por representarem, juntamente com São Paulo, os três maiores colégios eleitorais do país.
A economia deverá continuar entre os principais eixos do confronto. A perceção dos eleitores sobre preços, rendimento, emprego, tributação e contas públicas tornou-se um dos temas da campanha. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, realizado junto de empresas antes do primeiro turno, indicou que 54,2% apontavam a tributação como principal prioridade para o próximo Governo, seguida pelo controlo das contas públicas, redução da burocracia e melhoria da infraestrutura. Lula e Flávio apresentam posições distintas sobre temas como reforma tributária, papel do Estado e relações laborais.
A jornada de trabalho também entrou na campanha. Flávio criticou o momento da discussão sobre o fim da escala 6×1 e defende maior peso da negociação entre empregadores e trabalhadores, enquanto Lula tem procurado associar o tema à agenda laboral da segunda volta.
O horário eleitoral gratuito regressa na sexta-feira, 9 de outubro. Flávio e Lula terão tempos iguais na rádio e televisão, com 12 minutos e 30 segundos atribuídos a cada candidatura, além das inserções distribuídas ao longo da programação. Flávio abrirá a propaganda desta fase, seguindo-se Lula.
As primeiras sondagens realizadas exclusivamente depois da primeira volta ainda não tinham sido divulgadas até 7 de outubro. O Datafolha prevê apresentar o primeiro levantamento desta fase no dia 8, depois de entrevistar 2.520 eleitores entre 6 e 8 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais. A AtlasIntel deverá divulgar nova pesquisa no dia 9. Os números anteriores à primeira volta indicavam uma disputa dentro das margens de erro, mas não podem ser lidos automaticamente como fotografia atual, sobretudo depois do resultado das urnas e das novas alianças.
As perspetivas da campanha passam por três movimentos simultâneos. Flávio procura converter a vantagem da primeira volta e o fortalecimento do PL no Congresso em apoio eleitoral adicional, sobretudo entre eleitores de candidaturas conservadoras e do centro. Lula tenta recompor a campanha, reforçar a mobilização nos seus territórios tradicionais, recuperar espaço no Sudeste e convencer parte dos eleitores que não participaram na primeira votação.
Ígor Lopes