Brasil obtém o primeiro porco clonado da América Latina para pesquisa em transplantes

Foto: Docme Comunicação para Genoma USP/divulgação

Pesquisadores da Universidade de São Paulo obtiveram, no fim de março, o primeiro porco clonado do Brasil e da América Latina, após quase seis anos de pesquisa, em um projeto que visa viabilizar o uso de órgãos animais em transplantes humanos no sistema público de saúde.

O animal nasceu com 1,7 kg em um laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, em Piracicaba (SP), após gestação de quase quatro meses. O experimento integra o Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR), iniciativa iniciada em 2019 com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

O projeto reúne pesquisadores da Faculdade de Medicina e do Instituto de Biociências da USP e tem como objetivo desenvolver suínos geneticamente modificados capazes de fornecer órgãos compatíveis com humanos, reduzindo o risco de rejeição imunológica.

Para isso, os cientistas utilizam técnicas de edição genética, como o sistema CRISPR/Cas9, que permite alterar o DNA dos animais. No experimento, foram inativados três genes associados à rejeição e inseridos sete genes humanos para aumentar a compatibilidade biológica.

Segundo o pesquisador Ernesto Goulart, do Instituto de Biociências da USP, a clonagem de suínos é uma das etapas mais complexas do processo e necessária para viabilizar o xenotransplante.

Os embriões modificados foram implantados em fêmeas híbridas das linhagens Landrace e Large White. Novas gestações estão em andamento, segundo os pesquisadores.

Os animais serão mantidos em instalações com controle sanitário rigoroso, incluindo um biotério de biossegurança 2, para evitar a transmissão de patógenos em eventuais aplicações médicas.

Inicialmente, o projeto prevê a produção de órgãos como rim, córnea, coração e pele, que concentram a maior parte da demanda por transplantes no Sistema Único de Saúde (SUS). Os pesquisadores pretendem formar um plantel reprodutivo para ampliar a produção sem a necessidade contínua de clonagem.

A iniciativa ocorre em paralelo a estudos clínicos em andamento nos Estados Unidos e na China, que avaliam a viabilidade do xenotransplante, procedimento que utiliza órgãos de outras espécies em humanos. Até o momento, não há aprovação definitiva para a aplicação clínica da técnica.

Ígor Lopes

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