Brasil reduz presença diplomática na Argentina após insultos de Milei a Lula

Foto: Agência Incomparáveis

O Governo do Brasil anunciou, nos últimos dias, a redução da presença diplomática na Argentina, depois de o presidente argentino, Javier Milei, voltar a dirigir ataques ao presidente brasileiro, Lula da Silva, incluindo a acusação de que o chefe de Estado brasileiro é “um ladrão”, num novo episódio de agravamento das relações entre os dois países.

A medida foi tomada depois de Milei ter repetido as críticas a Lula nos dias anteriores, num momento em que o Brasil já tinha retirado o seu embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, na sequência das primeiras declarações do presidente argentino contra o homólogo brasileiro.

A decisão anunciada a 5 de agosto determinou que o embaixador não regressaria à Argentina enquanto Milei continuasse a fazer comentários agressivos contra Lula. Desde então, os interesses brasileiros na Argentina passaram a ser representados por um encarregado de negócios.

Com efeito, a decisão de Brasília constitui uma medida inédita na história recente das relações entre os dois países vizinhos. Segundo um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros brasileiro citado pela Associated Press, Milei referiu-se a Lula como “um ladrão” três vezes desde domingo, 26 de julho, num contexto de sucessivas declarações críticas contra o presidente brasileiro.

Os ataques de Milei já tinham assumido uma dimensão semelhante a 25 de julho, durante uma convenção partidária do senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e candidato às eleições presidenciais brasileiras de outubro.

Na mesma ocasião, o presidente argentino dirigiu também críticas ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, a quem chamou “lixo”, depois de o magistrado ter recusado um pedido de Milei para visitar Jair Bolsonaro, que se encontra em prisão domiciliária a cumprir uma pena de 27 anos por tentativa de golpe de Estado.

O presidente brasileiro não respondeu publicamente aos novos ataques de Milei. A relação entre os dois chefes de Estado tem sido marcada pela distância política desde que o líder argentino tomou posse, em dezembro de 2023.

A crise ocorre ainda num contexto de crescente tensão entre o Governo brasileiro e os Estados Unidos, país com o qual a Argentina de Milei mantém uma relação próxima.

Crise com os Estados Unidos agrava pressão diplomática sobre Brasília

No mesmo período, o Departamento de Estado dos Estados Unidos revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, numa nova escalada das tensões entre os dois países.

A decisão norte-americana ocorreu depois de o Brasil ter recusado, no mês anterior, vistos a dois diplomatas norte-americanos que pretendiam deslocar-se ao país antes das eleições presidenciais brasileiras de outubro. O episódio acrescentou uma nova frente de tensão à política externa do Governo Lula, já pressionado pela deterioração das relações com Buenos Aires.

A situação ocorre ainda durante o processo eleitoral brasileiro, depois de Lula ter sido oficialmente declarado candidato à reeleição na convenção do Partido dos Trabalhadores realizada no domingo, 2 de agosto.

Durante a convenção, o vice-presidente Geraldo Alckmin, que deverá voltar a integrar a candidatura de Lula, fez também uma referência aos líderes argentino e norte-americano ao frisar que o sistema de votação eletrónica brasileiro “não aceita votos de argentinos nem de americanos”.

A redução da representação diplomática brasileira em Buenos Aires mantém, assim, as relações entre Brasil e Argentina num nível inferior ao habitual, sem que, contudo, tenha sido anunciada uma ruptura formal das relações diplomáticas entre os dois países.

Ígor Lopes

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