O Real Gabinete Português de Leitura, situado no centro do Rio de Janeiro, foi agraciado com a Ordem de Camões, distinção atribuída pelo Governo de Portugal pelo contributo prestado à cultura portuguesa e à projeção da Língua Portuguesa. A cerimónia realizou-se no Palácio de São Clemente, residência oficial da cônsul-geral de Portugal na cidade, Gabriela Soares de Albergaria, e foi presidida pelo embaixador de Portugal no Brasil, Luís Faro Ramos, em nome do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
O ato assumiu particular relevância institucional por ter constituído o último compromisso público de Luís Faro Ramos à frente da missão diplomática portuguesa no Brasil. Na ocasião, o embaixador procedeu à imposição das insígnias da Ordem de Camões, no grau de Membro Honorário, ao Real Gabinete, representado pelo seu presidente, Francisco Gomes da Costa, perante representantes da comunidade portuguesa e do meio cultural luso-brasileiro.
Na sua intervenção, Luís Faro Ramos começou por sublinhar o caráter pessoal e institucional do momento vivido no Palácio de São Clemente.
“Este é para mim um momento de particular júbilo. A um dia de terminar a minha missão como embaixador de Portugal neste país, é-me dada a honra de entregar ao Dr. Francisco Gomes da Costa, em nome do Presidente da República de Portugal, as insígnias de membro honorário da Ordem de Camões ao Real Gabinete Português de Leitura”, disse o embaixador, acrescentando que “não poderia haver melhor forma de encerrar o meu ciclo de cinco anos”, enquadrando o gesto como o fecho simbólico da sua missão no Brasil.
Luís Faro Ramos destacou ainda a decisão presidencial, referindo que “em boa hora Sua Excelência o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa decidiu homenagear com a Ordem de Camões uma instituição que ostenta, entre as suas preciosidades, um exemplar da primeira edição da obra maior do poeta maior”, sublinhando de forma clara que “esta homenagem é muito merecida”.
Segundo o embaixador, tal reconhecimento justificou-se por múltiplas razões, desde logo porque “o Real Gabinete é, desde a sua constituição, já lá vão quase 200 anos, um poderoso instrumento de afirmação da luso-brasilidade, e desse modo um relevante parceiro na prossecução dos nossos objetivos de política externa neste país”.

Na mesma linha, Faro Ramos frisou a dimensão universal da instituição, salientando que “o Real Gabinete não se limita a servir Portugal e o Brasil, serve com extrema generosidade milhões de pessoas”, observando que tal se comprova pelo interesse e pela dedicação que “uma das mais bonitas bibliotecas do mundo desperta em todos quantos a visitam, presencialmente ou virtualmente”. Este responsável acrescentou ainda que a instituição soube renovar-se ao longo do tempo, ao afirmar que “o Real Gabinete não ficou a olhar para o passado, reinventou-se e expandiu-se, partiu para novos rumos”, exemplificando com a incorporação dos acervos dos professores Marcello Caetano e Ivanildo Bechara e com a homenagem prestada a Cleonice Berardinelli, através de um espaço a ela dedicado.
Faro Ramos reconheceu o papel da liderança atual, afirmando que “há quem cuide do legado e o faça prosperar”, dirigindo-se diretamente ao presidente da instituição com um agradecimento expresso: “Bem-haja, Dr. Francisco Gomes da Costa”.
No plano histórico, recordou que “em 1931 foi realizado no Real Gabinete Português de Leitura o primeiro Congresso dos Portugueses do Brasil”, iniciativa que visava unir o associativismo português no país através de uma federação, ideia que classificou como “pioneira e de muito mérito”, mas que, quase um século depois, “não só não se concretizou, como parece cada vez mais longe de se concretizar”.
Luís Faro Ramos sublinhou que sempre defendeu que “neste caso a união faz mesmo a força”, acrescentando que sabia partilhar essa visão com Francisco Gomes da Costa. Referiu que ambos se empenharam para que a reunião do associativismo português no Brasil, realizada em março de 2025, pudesse representar “um novo arranque, um novo ímpeto”, manifestando expectativa em relação à segunda reunião prevista para março seguinte, com um apelo direto à participação ativa.
O diplomata concluiu defendendo que, “agora como no passado, o Real Gabinete pode assumir papel de relevo” na construção de um futuro viável para as associações portuguesas no Brasil, considerando que a atribuição da Ordem de Camões confere à instituição “um argumento suplementar para assumir o lugar que lhe compete como primus inter pares”.
“Este é o meu apelo. Saibamos todos corresponder”, declarou, encerrando com uma mensagem de reconhecimento institucional: “Parabéns ao Real Gabinete, este é mais um dia para comemorar na vossa já longa e rica história. Obrigado”.
Com esta atribuição, o Real Gabinete passou a figurar como a segunda instituição fora de Portugal a receber a Ordem de Camões no referido grau, reconhecimento de um percurso iniciado em 1837 e consolidado ao longo de mais de um século e meio de preservação, difusão e valorização do património bibliográfico de matriz portuguesa.
A cerimónia contou com a presença de autoridades municipais, representantes de instituições culturais, incluindo a Academia Brasileira de Letras, e membros da diáspora portuguesa no Brasil. A Ordem de Camões distingue pessoas e instituições que se destacam na salvaguarda e projeção da Língua Portuguesa enquanto património imaterial partilhado no espaço da lusofonia.
Ígor Lopes