Cabo Verde assinala Dia Internacional da Língua Materna com debate sobre valorização do crioulo

A Câmara Municipal do Tarrafal assinalou o Dia Internacional da Língua Materna, celebrado a 21 de fevereiro, com uma série de atividades na Biblioteca Bibinha Cabral, reunindo alunos, professores, especialistas, escritores e membros da comunidade para refletir sobre os desafios da valorização e oficialização do crioulo cabo-verdiano.

A iniciativa contou com uma exposição dedicada à patrona da biblioteca e uma mesa-redonda subordinada ao tema “língua materna como espaço de identidade, educação e criação”. O presidente da Câmara Municipal do Tarrafal, José dos Reis, considerou o momento uma oportunidade de partilha e reflexão, destacando o envolvimento das escolas, académicos e da sociedade civil.

No seu discurso, o autarca defendeu um investimento “sem nenhum complexo” na afirmação da língua cabo-verdiana, sublinhando que a língua está diretamente ligada à identidade do povo cabo-verdiano. Em declarações, afirmou que é preciso promover uma reflexão contínua sobre a importância da língua materna, envolvendo escolas, alunos e académicos, de modo a provocar diálogo e reforçar a identidade nacional.

Também presente, a presidente da Associação Alma Cabo Verde, ALMA-CV, Amália Lopes, defendeu que a valorização do crioulo passa pelo reconhecimento efetivo dos direitos linguísticos e por um processo legislativo que permita a sua oficialização plena. Segundo afirmou, os jovens são simultaneamente falantes da língua e “falantes do futuro”, pelo que devem assumir um papel ativo na mudança de mentalidades ainda marcadas por ideias herdadas do período colonial.

Para Amália Lopes, muitas perceções negativas em relação ao crioulo resultam de conceções antigas que ainda persistem, mas sublinhou que há uma juventude disposta a servir o país e a experimentar novas ideias, desde que a língua tenha o lugar que merece.

O escritor Júlio Mante, coordenador da Casa do Livro e da Leitura do Tarrafal, reforçou a importância de aproximar os jovens da língua materna através da leitura e da valorização das tradições orais. Defendeu que atividades culturais e literárias são fundamentais para que os jovens aprendam, leiam e escrevam em crioulo, preservando a cultura nacional.

A linguista Mana Guta destacou a necessidade de uma educação linguística estruturada, defendendo que o crioulo já dispõe de instrumentos científicos e normativos. Para a especialista, o principal entrave continua a ser a falta de uma decisão política firme para avançar com a oficialização.

A nível nacional, o Presidente da República, José Maria Pereira Neves, assinalou a data lembrando que “a língua cabo-verdiana é o traço de união desta nossa nação global”. Numa mensagem publicada por ocasião da efeméride, manifestou o desejo de que, após as próximas eleições legislativas, se alcance consenso para a plena oficialização da língua cabo-verdiana, em paridade com a portuguesa, e a sua introdução em todos os níveis do sistema de ensino. Defendeu ainda que os estudantes devem concluir o liceu fluentes em cabo-verdiano, português, inglês, francês e, se possível, outras línguas.

Também o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas evocou a data, recordando que o Dia Internacional da Língua Materna foi proclamado pela UNESCO para promover a diversidade linguística e cultural e reforçar o multilinguismo como instrumento de inclusão e desenvolvimento sustentável.

Segundo a tutela, as línguas maternas são expressão viva da identidade e da memória coletiva, sendo fundamentais para a transmissão de saberes e valores. Em Cabo Verde, o debate científico e político sobre a oficialização do crioulo já decorre há décadas, mas, 50 anos após a independência, a questão continua a dividir o mundo político.

Representantes da sociedade civil alertam que o principal constrangimento tem sido a ausência de vontade política para enfrentar o que classificam como supremacismo da língua portuguesa, apontando inclusive apoios externos a essa posição.

Apesar dos entraves, associações como a ALMA-CV reafirmam que o 21 de fevereiro não pode passar em branco e defendem uma educação linguística que torne a população cada vez mais consciente da importância da defesa e valorização do crioulo, considerado um instrumento fundamental da identidade cabo-verdiana e símbolo de resistência e coesão nacional em Cabo Verde.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Subescreve a Newsletter

Artigos Relacionados

Cabo Verde e Senegal reforçam cooperação em defesa e segurança militar

Cabo Verde e Senegal manifestaram a intenção de...

0

Cabo Verde analisa com Portugal maior cooperação em políticas migratórias

O ministro de Estado, da Família, Inclusão e...

0

FMI sugere reforma no IVA para reduzir a pobreza em Cabo Verde

O Fundo Monetário Internacional (FMI) propôs uma reforma...

0