O Presidente da República, José Maria Neves, afirmou esta sexta-feira que “celebrar a memória é um exercício de justiça”, defendendo que o contributo do clero diocesano para Cabo Verde ultrapassa a dimensão religiosa e constitui um património moral, social e cultural da República. A declaração foi feita na abertura da Conferência Magna “Construir a Nação, Servir a Missão: Memória e Contributo do Clero Diocesano no Cabo Verde Pós-Independência”, integrada nas celebrações do Jubileu de Ouro da Ordenação Presbiteral do Cardeal Dom Arlindo Gomes Furtado.
Na intervenção de abertura, José Maria Neves destacou que a homenagem ao clero diocesano representa também um reconhecimento da história do país e da missão desempenhada pela Igreja Católica na formação da identidade nacional ao longo de quase cinco séculos. Segundo o Chefe de Estado, recordar aqueles que serviram Cabo Verde com dedicação constitui um dever de gratidão da Nação.
“Celebrar a memória é um exercício de justiça. Recordar aqueles que serviram o país com dedicação silenciosa, com discrição exemplar e com espírito de missão é cumprir um dos mais sagrados deveres: a gratidão de uma Nação inteira”, afirmou.
O Presidente sustentou que a história contemporânea de Cabo Verde não pode ser compreendida sem o papel desempenhado pela Igreja Católica na alfabetização, na educação, na formação intelectual, na cultura e na construção da identidade cabo-verdiana. Nesse contexto, evocou instituições como o Seminário-Liceu de São Nicolau e o Seminário de São José, que classificou como importantes centros de formação de quadros nacionais.
José Maria Neves referiu ainda que, após a independência, o desafio do país foi construir uma nova Nação, tarefa que, segundo explicou, exigia muito mais do que criar instituições ou aprovar leis. Para o Presidente, era necessário formar consciências, fortalecer valores, promover a cidadania, preservar a dignidade humana e cultivar a esperança, missão na qual o clero diocesano teve um papel relevante.
Ao abordar o percurso da Igreja no período pós-independência, o Chefe de Estado afirmou que sacerdotes diocesanos estiveram presentes em diferentes áreas da vida nacional, desde a educação e a saúde até à assistência social, à promoção da paz, ao apoio às famílias, aos emigrantes e às populações mais vulneráveis. Acrescentou que, em períodos de seca, dificuldades económicas e catástrofes naturais, muitos sacerdotes permaneceram ao lado das comunidades, ajudando a encontrar respostas para os seus problemas.
Grande parte da intervenção foi dedicada ao Cardeal Dom Arlindo Gomes Furtado, cuja trajetória José Maria Neves apresentou como exemplo de serviço ao país. O Presidente considerou que o primeiro cardeal cabo-verdiano representa uma figura de consenso nacional e um dos principais referenciais da geração pós-independência.
“Dom Arlindo Gomes Furtado representa a mais bela síntese do que de melhor se pode extrair do legado da Igreja Católica em Cabo Verde”, declarou.
José Maria Neves observou ainda que a celebração dos 50 anos de sacerdócio de Dom Arlindo coincide simbolicamente com o percurso de consolidação da República, recordando que o Cardeal iniciou o seu ministério precisamente quando Cabo Verde dava os primeiros passos enquanto Estado independente.
O Presidente afirmou que o Jubileu Sacerdotal deve ser entendido não apenas como um acontecimento eclesial, mas também como uma oportunidade para reconhecer o contributo da Igreja Católica na construção da Nação e refletir sobre a forma como a liderança pastoral de Dom Arlindo acompanhou a evolução política, social, cultural e humana do país.
Na reta final da intervenção, José Maria Neves destacou igualmente a evolução das relações entre o Estado e a Igreja Católica após a independência. Recordou que foi durante o episcopado de Dom Arlindo em Santiago que se iniciou um processo de diálogo que culminou no acordo entre Cabo Verde e a Santa Sé e, posteriormente, na aprovação da Lei da Liberdade Religiosa.
“Desejo que esta relação continue perene para o bem de Cabo Verde, para o bem da Igreja e para o bem de todas as cabo-verdianas e de todos os cabo-verdianos”, afirmou.
Ao declarar oficialmente aberta a Conferência Magna, o Presidente manifestou o desejo de que o encontro constitua um espaço de reflexão, diálogo e partilha entre gerações, contribuindo para preservar a memória coletiva e renovar o compromisso nacional com os valores da paz, da solidariedade, da justiça social e da construção permanente de Cabo Verde.