O Festival de Literatura-Mundo do Sal concluiu a sua edição de 2025 neste domingo, 29 de junho, após quatro dias de intensa programação cultural e literária na cidade de Santa Maria. O evento, que este ano teve como mote os 50 anos das independências de Angola, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe, reuniu autores, investigadores, estudantes e artistas para refletir sobre o legado e o futuro da emancipação africana através da palavra.
O momento de encerramento foi marcado pelo discurso emocionado e reflexivo do investigador Luca Fazzini, que assumiu o papel de porta-voz dos convidados. “É com imensa gratidão que me transformo momentaneamente em porta-voz de todas e todos os convidados deste Festival”, declarou, sublinhando o ambiente de comunhão e pensamento crítico que marcou o evento.
Segundo Fazzini, o festival não foi apenas uma comemoração simbólica, mas uma oportunidade para “retomar o fio de um sonho”. Disse ainda que celebrar as independências nos dias de hoje “é persistir, é afirmar que os projetos de emancipação ainda pulsam”, lembrando que há páginas ainda por escrever, tanto na literatura quanto nas práticas quotidianas de justiça e imaginação.
O festival teve como figuras centrais quatro poetas emblemáticos: Agostinho Neto, Alda Espírito Santo, Noémia de Sousa e Onésimo Silveira. Fazzini lembrou que essas vozes “souberam transformar a língua portuguesa num campo de batalha e de beleza, lugar de resistência e de reinvenção”. As homenagens reuniram investigadores como Alda Barros, Jorge Tolentino, Margarida Rendeiro e o próprio Fazzini, que trouxeram olhares renovados sobre os autores, aliando análise crítica à emoção poética.
As sessões foram enriquecidas pela participação ativa de estudantes, que deram corpo à proposta do festival de criar pontes entre gerações. Para Fazzini, “a poesia circulou entre corpos e gerações, como um saber vivo que deixou e deixará rastos”.
As mesas de reflexão científica e literária foram destaque da programação. A conferência de abertura, conduzida por Inocência Mata, traçou o papel das literaturas africanas no mapa global da literatura-mundo, estabelecendo as bases para os debates seguintes.
Escritores como Dina Salústio, Luiz Ruffato, Joaquim Arena, Andreia Tavares, António de Castro Guerra, entre outros, abordaram temas como circulação literária, intertextualidade, insularidade e resistência. Fazzini destacou a riqueza dos diálogos, afirmando que “foi um gesto de pensar os arquipélagos como estética e condição existencial”.
Lançamentos como “Nuninha”, de Andreia Tavares, e “O Arquipélago das Amnésias”, de Jorge Tolentino, fecharam as tardes de sexta e sábado com entusiasmo do público presente.
O encerramento incluiu agradecimentos à curadora científica Inocência Mata, à organização liderada por Márcia Souto e Filinto Elísio, bem como ao Presidente da Câmara Municipal do Sal, Júlio Lopes, considerado por Fazzini um “verdadeiro mecenas” que tornou possível a realização do festival.
“Criámos comunidade, tecemos laços de amizade e, com eles, cuidamos um pouco das nossas almas”, declarou Fazzini, num dos momentos mais emocionantes do discurso final. Enfatizou ainda que o festival contribui para a construção de uma fraternidade global a partir de África, alertando para a necessidade de manter vivo esse gesto criador, sobretudo em tempos de incerteza.
Luca Fazzini terminou com uma mensagem de esperança e continuidade: “Deixamos aqui, obviamente, não um adeus, mas uma saudação em forma de futuro”. Para ele, o Festival de Literatura-Mundo do Sal é mais do que um evento literário — é um espaço de transformação coletiva.
“Certamente regressaremos a esta ilha e ao Festival. Como sempre regressamos onde fomos felizes – porque o festival é também família, e nunca se deixa de visitar a família”, concluiu, entre aplausos.
De referir ainda que, Nha Nácia Gomes e Manoel de Barros serão os homenageados do Festival de Literatura Mundo Sal 2026, anúncio feito pela Márcia Souto, da Rosa de Porcelana Editora.
Anícia Cabral – Correspondente