Cabo Verde: José Maria Neves defende oficialização do cabo-verdiano e anuncia Cátedra da Crioulidade Atlântica

O Presidente da República, José Maria Neves, defendeu a oficialização da língua cabo-verdiana e anunciou a criação de uma Cátedra da Crioulidade Atlântica durante o encerramento do I Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica, realizado na cidade da Praia. Na ocasião, o Chefe de Estado reafirmou o compromisso de trabalhar para alcançar os consensos necessários que permitam transformar em realidade um objetivo há muito reivindicado pela sociedade cabo-verdiana.

Segundo José Maria Neves, o cabo-verdiano já se encontra amplamente consolidado na vida nacional. O Presidente destacou que a língua é utilizada na política, nas celebrações religiosas, na literatura e na música, existindo igualmente um importante acervo científico constituído por dicionários, gramáticas e estudos desenvolvidos por universidades e investigadores. “Os políticos não conseguem fazer uma campanha eleitoral em português, é tudo em crioulo, na língua cabo-verdiana”, afirmou.

Ainda sobre esta matéria, o Chefe de Estado manifestou confiança quanto ao futuro do processo. De acordo com ele, a sociedade está à frente das instituições políticas e administrativas, razão pela qual considera que a oficialização poderá acontecer mais cedo do que muitos imaginam. Nesse sentido, apelou a uma maior mobilização social para incentivar os representantes parlamentares a concretizarem esse passo histórico.

Durante o discurso, José Maria Neves revelou também que Cabo Verde irá trabalhar, em parceria com universidades nacionais e estrangeiras, na criação da Cátedra da Crioulidade Atlântica. Segundo explicou, a iniciativa permitirá aprofundar estudos e investigações sobre as nações crioulas, reforçando a cooperação científica e cultural entre os diferentes países e comunidades que partilham essa herança histórica.

O Presidente destacou ainda o projeto de tradução integral da Bíblia para a língua cabo-verdiana diretamente do grego, hebraico e aramaico, cuja conclusão está prevista para 2033. Para o estadista, trata-se de um marco cultural e científico que evidencia a maturidade e a capacidade de afirmação da língua nacional.

Ao longo da sua intervenção, José Maria Neves apresentou a crioulidade como um modelo de convivência para um mundo marcado por conflitos, divisões e incertezas. Na sua perspetiva, as nações crioulas possuem características singulares, como a resiliência, a tolerância, o diálogo e a valorização da diversidade, que podem contribuir para a construção de uma sociedade global mais humana e solidária.

“Nós, sim, somos o futuro”, declarou o Presidente, defendendo que os povos crioulos devem afirmar-se perante aqueles que procuram impor relações baseadas na força, no medo e na exclusão. Para ele, a experiência histórica dessas nações demonstra que é possível construir caminhos de paz, amizade e cooperação.

Ao fazer um balanço dos 50 anos da independência nacional, José Maria Neves afirmou que Cabo Verde representa uma África positiva, democrática e ambiciosa. O Chefe de Estado salientou que o país tem procurado consolidar as liberdades, fortalecer o Estado de direito e criar mais oportunidades para os seus cidadãos, contribuindo simultaneamente para um mundo mais justo e sustentável.

O Presidente anunciou ainda que a segunda edição do Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica será realizada em 2028, coincidindo com a celebração de Cabo Verde como Capital Africana da Cultura. Segundo afirmou, o próximo encontro deverá contar com uma participação política mais expressiva, envolvendo decisores de diferentes países para aprofundar e operacionalizar as ideias discutidas nesta primeira edição.

No encerramento, José Maria Neves agradeceu à Comissão Científica, às universidades, às câmaras municipais envolvidas e à equipa da Presidência da República pelo sucesso da iniciativa. Por fim, deixou uma mensagem de esperança e mobilização coletiva. “Não tenhais medo. Há a possibilidade de construirmos um novo mundo”, afirmou, defendendo que a crioulidade deve afirmar-se como um movimento global em favor da paz, da diversidade e da dignidade humana.

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