O Presidente da República, José Maria Neves, afirmou esta quinta-feira que Cabo Verde vive um momento que confirma a maturidade das suas instituições democráticas e apelou ao novo Governo para governar com coragem, capacidade de escuta e determinação na concretização das suas políticas. A mensagem foi deixada durante a cerimónia de posse do XI Governo Constitucional, marcada pela exaltação dos valores democráticos, pela valorização do percurso recente da Seleção Nacional de Futebol e pela identificação dos principais desafios que o país enfrenta nos próximos anos.
Na sua intervenção, o Chefe de Estado considerou que a tomada de posse do novo Executivo representa mais do que a entrada em funções de um Governo, simbolizando a renovação da confiança popular e da esperança dos cabo-verdianos num futuro de progresso, bem-estar e desenvolvimento sustentável.
“Hoje não toma posse apenas um Governo. Renova-se um mandato de confiança popular. Renova-se a esperança num futuro de progresso e bem-estar”, afirmou José Maria Neves perante os membros do novo Executivo, representantes dos órgãos de soberania, corpo diplomático e convidados.
Ao refletir sobre o atual momento do país, o Presidente da República dedicou uma parte significativa do seu discurso ao desempenho da Seleção Nacional de Futebol, os Tubarões Azuis, cuja qualificação para o Campeonato do Mundo considerou um dos acontecimentos mais marcantes da história recente de Cabo Verde.
Segundo José Maria Neves, a presença da seleção entre as melhores equipas do mundo transcende o plano desportivo e constitui uma poderosa metáfora da capacidade dos cabo-verdianos para superar limitações e alcançar objetivos considerados improváveis.
O Chefe de Estado recordou que, há cinquenta anos, muitos duvidavam da capacidade do arquipélago para se afirmar como um Estado estável e respeitado na comunidade internacional. Contudo, observou que, ao longo das últimas décadas, Cabo Verde construiu uma democracia sólida, registou avanços significativos no desenvolvimento humano e alcançou reconhecimento internacional em várias áreas.
Para o Presidente da República, o percurso dos Tubarões Azuis representa precisamente essa capacidade histórica de superar desafios. Segundo afirmou, a seleção demonstrou que a ousadia, a serenidade e a confiança podem transformar o aparentemente impossível em realidade.
“Os Tubarões Azuis mostraram-nos que os limites que muitas vezes aceitamos como inevitáveis existem sobretudo na nossa mente”, declarou.
Partindo desse exemplo, José Maria Neves defendeu que o país deve procurar a excelência em todos os setores da vida nacional. Referiu que Cabo Verde deve ambicionar resultados semelhantes na educação, na ciência, na tecnologia, na economia azul, na cultura, na administração pública, na inovação e no empreendedorismo.
O Presidente considerou ainda que o sucesso alcançado pela seleção nacional deve ser convertido em benefícios concretos para o desenvolvimento económico e social do país. Na sua perspetiva, o desporto e a cultura não devem ser vistos apenas como fatores de afirmação identitária, mas também como instrumentos capazes de atrair investimentos, impulsionar o turismo, gerar oportunidades económicas e reforçar a projeção internacional de Cabo Verde.
Ao abordar o futuro do país, José Maria Neves apelou à mobilização de todas as forças nacionais em torno de objetivos comuns. Defendeu que o desenvolvimento dependerá cada vez mais da capacidade de unir talentos, criar oportunidades e valorizar o contributo dos cabo-verdianos residentes no arquipélago e na diáspora.
Nesse contexto, destacou o papel estratégico da diáspora, considerando que esta representa uma importante fonte de conhecimento, experiência, investimento e influência internacional. Segundo afirmou, é fundamental fortalecer as ligações entre as comunidades emigradas e Cabo Verde, aproveitando todo o potencial existente para impulsionar o desenvolvimento nacional.
O Chefe de Estado aproveitou igualmente a ocasião para refletir sobre o estado da democracia cabo-verdiana. Embora tenha considerado que o país continua a dar provas de solidez institucional e maturidade cívica, manifestou preocupação com a elevada taxa de abstenção registada nas últimas eleições legislativas.
José Maria Neves afirmou que este fenómeno deve merecer uma análise profunda por parte dos partidos políticos e das instituições, sublinhando a necessidade de compreender as razões que levam muitos cidadãos a afastarem-se da participação eleitoral.
Ao mesmo tempo, destacou que os cabo-verdianos estão cada vez mais exigentes em relação à ação política, avaliando os governantes pela sua capacidade de apresentar resultados concretos e responder aos problemas da população.
O Presidente da República elogiou ainda o ambiente de civismo que marcou a campanha eleitoral e a transição governativa. Em particular, destacou o encontro realizado entre o Primeiro-Ministro cessante, Ulisses Correia e Silva, e o Primeiro-Ministro indigitado para a transferência de pastas, considerando-o um exemplo de responsabilidade institucional, respeito democrático e sentido de Estado.
Na mesma ocasião, reconheceu o trabalho desenvolvido pelo Governo cessante durante os últimos dez anos e agradeceu o serviço prestado ao país por Ulisses Correia e Silva e pelos seus colaboradores.
Dirigindo-se ao novo Executivo liderado por Francisco Carvalho, José Maria Neves alertou para a dimensão dos desafios que o país enfrenta. Entre as prioridades apontadas, destacou a melhoria da conectividade entre as ilhas, a redução da pobreza e das desigualdades sociais, a criação de emprego, o aumento dos rendimentos das famílias, o reforço da segurança, a aceleração da transição energética e a melhoria do acesso à água.
O Presidente referiu ainda a necessidade de fortalecer os sistemas de educação e saúde, consolidar a justiça, reforçar a liberdade de imprensa e modernizar a Administração Pública, tornando-a mais eficiente, mais próxima dos cidadãos e mais orientada para resultados. Por outro lado, defendeu que a oposição deve exercer uma fiscalização responsável e construtiva, contribuindo para o fortalecimento da democracia e para a resolução dos problemas nacionais.
José Maria Neves considerou igualmente importante que sejam alcançados consensos para a renovação dos órgãos externos à Assembleia Nacional e para a concretização dos grandes objetivos estratégicos do país. Ao concluir, reiterou a disponibilidade da Presidência da República para cooperar institucionalmente com o Governo, respeitando os princípios constitucionais e preservando o clima de estabilidade entre os órgãos de soberania.
Dirigindo uma última mensagem ao novo Primeiro-Ministro e aos membros do Governo, o Chefe de Estado afirmou que os cabo-verdianos esperam integridade, visão e resultados por parte dos seus governantes. “Que o Governo tenha a coragem de ousar, a sabedoria de escutar e a determinação de realizar”, declarou.
José Maria Neves encerrou a intervenção manifestando confiança na capacidade do país para continuar a superar desafios e construir novas conquistas, defendendo que Cabo Verde possui todas as condições para alcançar níveis cada vez mais elevados de desenvolvimento económico, social e institucional.