“Dalila Lopes: quando acreditar em alguém muda destinos”
Aos 27 anos, Dalila Lopes recorda com clareza o momento que marcou o início da sua carreira. Na altura com apenas 18 anos, recém-saída da escola e sem qualquer experiência, foi abordada por um manager que lhe perguntou se queria trabalhar. “Eu disse logo que não tinha experiência nenhuma”, conta. No entanto, recebeu uma resposta inesperada: havia preferência em formar alguém “sem vícios”, alguém que pudesse aprender desde o início.
Assim, Dalila entrou no mundo da hotelaria com o objetivo inicial de juntar dinheiro para estudar no ano seguinte, conta ao jornal E-Global em uma entrevista. Contudo, à medida que trabalhava, acabou por descobrir ali um caminho. Passou por várias funções, cresceu profissionalmente e, mais tarde, trabalhou alguns anos em Portugal — experiência que, segundo ela, lhe abriu os olhos para o que falta no sistema cabo-verdiano.
Quando regressou ao país, começou a assumir responsabilidades maiores, tornando-se supervisora mesmo sem nunca ter desempenhado essa função. “Lembrava sempre às minhas colegas: eu nunca tinha sido supervisora”, diz. Todavia, os seus superiores insistiam que isso era uma vantagem. Esse princípio — o de formar pessoas do zero — tornou-se mais tarde a base do seu método de trabalho.

“Entre jovens sem experiência e equipas fortes: o método que nasce da prática”
Com o tempo, Dalila passou a liderar equipas compostas maioritariamente por jovens de 18 e 19 anos, muitos deles com pouca ou nenhuma vivência profissional. Nesse contexto, percebeu que, mais do que ensinar técnicas, era necessário trabalhar comportamentos. “Às vezes não é só ensinar a profissão; é ensinar responsabilidade, postura, maneira de estar”, afirma.
Um exemplo marcante é o do rapaz que começou na lavagem de pratos, sem inglês e sem noção do atendimento ao público. Dalila ensinou-lhe desde como falar com clientes até ao que podia ou não fazer, como evitar tocar numa criança sem permissão. “Em três meses, ele estava impecável”, diz com orgulho.
Outro caso foi o de um jovem vendedor com cabelo rasta cor-de-rosa e alargadores. Alguns colegas duvidaram da sua capacidade de integrar a equipa, mas Dalila decidiu apostar nele. Pediu apenas mais cuidado com a imagem. O resultado surpreendeu: poucos meses depois, o jovem tornou-se um dos melhores vendedores, alcançando 6.000 euros em vendas.
Para Dalila, esses resultados só são possíveis porque há acompanhamento constante. Ela explica que muitos jovens chegam ao trabalho ainda com hábitos do liceu — conversas paralelas, brincadeiras, dificuldade em aceitar correções. Por isso, insiste na importância de conversar, orientar e corrigir de forma contínua. “É psicologia. É maturidade. É sentar e falar quando for preciso”, sublinha.
Apesar das dificuldades, afirma que o processo é altamente gratificante, sobretudo quando observa a evolução — especialmente nos que chegam inseguros e, meses depois, conversam em inglês com clientes ou recebem elogios espontâneos. “É muito bom ver essa transformação.”
“Do liceu ao mercado de trabalho: o vazio que ainda ninguém preencheu”
Durante a entrevista, Dalila falou de forma clara sobre a transição entre escola e trabalho. Para ela, existe uma falha estrutural: os jovens terminam o ensino secundário sem preparação prática para enfrentar o mercado. “É preciso preparar melhor”, afirma.

A partir da sua experiência em Portugal, onde viu escolas mandarem alunos para estágios de férias antes mesmo de concluírem o liceu, Dalila acredita que Cabo Verde deveria adotar um modelo semelhante. Segundo ela, mesmo poucas horas de estágio por dia — durante as férias — fariam diferença.
“Se eles passassem dois, quatro ou seis horas numa empresa, já chegariam mais preparados”, defende.
Além disso, destaca três carências frequentes entre os jovens:
1. Línguas
Para Dalila, inglês e francês são ensinados de forma demasiado teórica. Por isso, sugere que as aulas deveriam ocorrer exclusivamente na língua estudada. “Língua aprende-se falando. Foi assim que aprendi.”
2. Comportamento profissional
Muitos jovens não têm noção de hierarquia, horários, responsabilidade e foco, observa ela. A transição rápida do ambiente escolar para o atendimento ao cliente torna-se difícil sem orientação.
3. Tecnologias básicas
Dalila reforça que informática não pode ser opcional: “Saber enviar um e-mail, mexer no Excel… isso é básico. Não devia ser escolha.”
Diante dessas lacunas, acredita que parcerias entre escolas e empresas — especialmente em ilhas turísticas como o Sal — seriam essenciais para preparar melhor os jovens.
“Entre carreira, família e futuro: o projeto que Dalila quer realizar”
Embora reconheça as conquistas profissionais, Dalila admite que enfrenta desafios pessoais. A maternidade, combinada com horários exigentes e a ausência de família na ilha, trouxe dificuldades. Por isso, pondera, por vezes, afastar-se temporariamente do país para reorganizar a vida.
Mesmo assim, reafirma que não pretende viver fora de Cabo Verde por muito tempo: “O objetivo é sempre voltar.”
Quanto ao futuro, Dalila tem um sonho claro: criar um projeto dedicado à formação e orientação de jovens. Ainda sem nome, mas com propósito definido, esse projeto procuraria oferecer formações, palestras e oportunidades que façam a ponte entre a escola e o mundo do trabalho. “Há muitos jovens à espera de uma oportunidade. Quando alguém acredita neles, tudo muda.”
Dalila termina com humildade: “Às vezes a gente trabalha tanto que nem percebe o quanto está a ajudar os outros.”
E talvez seja justamente essa a marca do seu caminho — transformar vidas enquanto transforma a sua própria.
5 Comments
😍👏🏾👏🏾👏🏾
Um orgulho enorme para todos que tem o privilégio de a conhecer e de toda sua comunidade!!
Parabens sucesso com a tua umildade vais longe q os teus sonhos se torna realidade bjs
Nice work Dalila!!😍
I’m truly glad to be able to get to know part of your story and your journey through life. Thank you for this.
I wish you all the best.❤️
Grande profissional 💪🏼❤️🙏como pessoa também é incrível , focada sempre e simpática 👏🏻