Cabo Verde: “ENTRE NÃO SER E QUERER SER”, a jornada literária de Scar Martins

Scar Martins aos 30 anos, cabo-verdiano atualmente residente na Suíça, acaba de lançar a sua primeira obra literária,“Entre o não ser e o querer ser”. O livro, que mistura poesia em português e em crioulo, propõe uma reflexão profunda sobre identidade, pertença, imperfeição e crítica social. Segundo o autor, mais do que respostas, a obra oferece perguntas, convida à introspeção e desperta o pensamento crítico num tempo em que a velocidade da informação parece sufocar o questionamento.

Nascido em ´Son Bento´, Cabo Verde em 1994, Scar Martins cresceu no arquipélago até completar o ensino secundário, no Liceu Amílcar Cabral. Em novembro de 2012, mudou-se para Portugal, onde estudou serviços jurídicos em Mirandela e ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa dois anos depois. Durante esse período, trabalhou como barman, liderou o Núcleo de Estudantes Africanos, foi vice-presidente do Conselho Fiscal da Associação Académica e mais tarde atuou em empresas multinacionais como a Accenture e o BNP Paribas. Depois, decidiu mudar-se para a Suíça, onde vive há cerca de um ano e meio e trabalha como conselheiro financeiro. Paralelamente, alimentou a paixão pela escrita, que descreve como um desabafo transformado em vocação.

Em entrevista ao jornal E-Global, o escritor explicou que a motivação para escrever nasceu ainda em 2012, mas ganhou corpo durante a pandemia da COVID-19. No início, estava a elaborar uma obra sobre a realidade africana, que intitulou “Quarentena da África”, mas o processo foi interrompido quando perdeu parte do material. Nesse período, encontrou na poesia uma forma natural de expressão. “Não comecei a escrever poesia como algo planeado. Foram desabafos que se tornaram poemas, sempre inspirados por leituras intensas de Fernando Pessoa, Dostoiévski, Nietzsche e também de autores africanos. Aos poucos, percebi que estava a criar uma obra com ´identidade própria.´”

O autor reconhece que a sua escrita não se enquadra no molde tradicional da poesia. Em vez de quadras rígidas e estrofes rimadas, traz versos livres, intensos, próximos da oralidade e do discurso falado. Para Scar, essa escolha reflete a autenticidade do processo criativo e a tentativa de dar voz a questionamentos que pertencem a todos. “Não queria publicar apenas mais um livro, mas algo que tivesse impacto. Queria que os leitores olhassem para o texto e reconhecessem que esse é a escrita de Scar.”

A escrita como um desabafo:

Questionado sobre os desafios do processo criativo, o escritor aponta o perfeccionismo como o maior obstáculo. Segundo ele, foi necessário tempo para sentir que o livro estava pronto para chegar ao público. A inspiração, contudo, surgia de forma espontânea e até imprevisível. “Muitas vezes acordava de madrugada com versos prontos na cabeça. Escrevia em guardanapos, no telemóvel, em qualquer lugar. Era como se fosse uma bênção. Não seguia horários nem rotinas, porque a escrita vinha naturalmente.”

O título nasceu apenas depois de o livro estar concluído. Representa, segundo Scar, o conflito entre a busca da identidade e a pressão social para projetar uma imagem perfeita. O autor critica a superficialidade das redes sociais e a obsessão contemporânea pela aparência. Para ele, o livro funciona como um espelho que convida o leitor a aceitar a própria imperfeição e a partir daí construir o que deseja ser, sem se submeter às imposições externas.

“Hoje vende-se segredo para tudo — para amar, ser feliz ou enriquecer. Mas esquecemo-nos de aceitar as nossas imperfeições. O livro é um espelho que nos convida a olhar para nós mesmos sem máscaras”, afirma Martins.

A obra aborda ainda questões relacionadas com dor, identidade cultural e racial. No poema Mulato, por exemplo, o escritor explora a dualidade histórica e social dessa condição, refletindo sobre rejeição, pertença e aceitação. “O mulato carrega a dor da história, a cor da traição no olhar do colono e a marca da violência na senzala. Mas, acima de tudo, representa a necessidade de afirmar-se como inteiro, sem ser reduzido a metades.” Para Scar, a poesia funciona como espaço de denúncia, mas também de reconciliação com as próprias raízes.

A escolha de escrever em português e em crioulo foi igualmente consciente e crítica. O autor considera que Cabo Verde continua culturalmente colonizado pelo receio de oficializar o crioulo, e defende a valorização da língua materna. “É possível as duas línguas coexistirem, mas é necessária a oficialização do crioulo. Precisamos escrever, publicar e produzir mais obras na nossa língua para quebrar o mito de que é complicado.”

Scar Martins reconhece a influência do escritor queniano Ngũgĩ wa Thiong’o, que nos anos 70 deixou de escrever em inglês para escrever apenas em kikuyu, a sua língua materna. Esse gesto de resistência inspirou-o a refletir sobre a situação de Cabo Verde, onde o debate sobre a oficialização do crioulo ainda persiste.

A receção inicial da obra tem sido marcada por emoção e identificação. Scar relata que, após a divulgação de vídeos a declamar alguns poemas, recebeu mensagens de leitores que se sentiram profundamente tocados. “Muitos disseram que o livro é intenso, que os textos os levaram a pensar sobre a vida, os relacionamentos, o tempo. Alguns poemas provocaram lágrimas. Esse feedback mostra que o objetivo foi alcançado: despertar reflexão.”

Reações e próximos projetos:

Entre os projetos futuros, o autor já prepara duas novas obras. Uma delas é a retomada de “Quarentena da África”, que analisa a instabilidade política e económica do continente. A outra, intitulada “O Preço da Voz – o custo da participação política”, foca-se especificamente em Cabo Verde e questiona a solidez da democracia no país. Para Scar Martins, apesar da imagem internacional de estabilidade, a participação política no arquipélago tem um custo elevado para quem ousa criticar o governo. “Muitas pessoas são silenciadas. Professores, empresários e cidadãos comuns acabam castigados por exercerem o direito de questionar. A nossa democracia é mais frágil do que parece, e é preciso coragem para participar ativamente.”

Ao lançar-se como escritor, Scar Martins não apenas expõe a sua própria luta existencial, mas também reflete sobre dilemas universais e contemporâneos. A sua obra de estreia posiciona-se como um convite à introspeção e à valorização da imperfeição humana, ao mesmo tempo que denuncia desigualdades e instabilidades sociais. Para o autor, escrever é mais do que criar literatura: é interrogar, incomodar e despertar.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Subescreve a Newsletter

Artigos Relacionados

Cabo Verde: Nova Delegação do INPS no Sal moderniza proteção social no país

A cidade de Espargos, na ilha do Sal,...

0

Cabo Verde: Índice de Volume de Negócios nos Serviços sobe 6,6%

O Instituto Nacional de Estatísticas (INE) de Cabo...

0

Cabo Verde: Ministro da Educação reforça parceria com organizações internacionais

O Ministro da Educação, Amadeu Cruz, reuniu-se esta...

0