Na ressaca do golpe de Estado de 26 de novembro, que afastou Umaro Sissoco Embaló, suspendeu o processo eleitoral e colocou o Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública (ACM) no centro do poder, a Guiné-Bissau volta a viver entre quartéis e incertezas. O general Horta Inta-A assumiu a presidência de transição por um ano e nomeou Ilídio Vieira Té como primeiro-ministro, enquanto a comunidade internacional exige o regresso à ordem constitucional.
É neste cenário que se destaca a figura de João Bernardo Vieira (JBV), 48 anos, jurista e político, sobrinho e homónimo do antigo Presidente “Nino” Vieira. Antigo porta-voz do PAIGC e ex-secretário de Estado dos Transportes e Comunicações. Com formação universitária em Lisboa e trajeto académico internacional, foi candidato presidencial em 2019 e, nas eleições de 23 de novembro de 2025, voltou à corrida com o apoio do PALDG, depois de o PAIGC recusar endossar a sua candidatura. Antes e durante a sua campanha eleitoral o seu discurso centrou-se na reconciliação nacional e na “regeneração” da classe política guineense.
Na apresentação do novo executivo de Ilídio Vieira Té, João Bernardo Vieira surge na chefia do estratégico Ministério dos Negócios Estrangeiros, Cooperação Internacional e Comunidades. Poucas horas depois da sua nomeação, a e-Global conversou com João Bernardo Vieira.
e-Global: O que motivou aceitar integrar este Governo que surge num ambiente de crise institucional e política?
JBV: A decisão de integrar este Governo de Transição resulta de um profundo sentido de responsabilidade com o Estado e o povo da Guiné-Bissau. Num momento de grande incerteza institucional, não podemos permitir que o país mergulhe no isolamento, na desordem ou na rutura total com a comunidade internacional.
Aceitei esta missão porque acredito que, mesmo em contextos difíceis, é possível criar pontes, restaurar a confiança e preparar as condições para o retorno à normalidade constitucional.
A minha presença neste Governo não é um apoio a qualquer rutura, mas sim um compromisso com a estabilidade, com o diálogo e com a defesa dos interesses permanentes da República. A Guiné-Bissau precisa de serenidade, diplomacia e capacidade de escutar todas as partes e estou aqui para isso.
Após as posições da CEDEAO, CPLP, União Africana (UA) e ONU, que principais argumentos vão sustentar uma inversão dos posicionamentos destas Instituições?
O primeiro argumento será sempre o da responsabilidade do Estado e da necessidade de evitar um agravamento da crise.
Nenhuma instituição internacional deseja ver a Guiné-Bissau afundar-se num ciclo de instabilidade sem fim.
Defenderei quatro pontos essenciais. Compromisso com o retorno à ordem constitucional, um calendário claro, público e verificável; garantias de respeito pelos direitos humanos, liberdades fundamentais e funcionamento normal das instituições; abertura total ao diálogo com os nossos parceiros internacionais, incluindo missões de avaliação, mediação e acompanhamento; engajamento firme na preservação da paz e segurança regional, que é uma preocupação legítima da CEDEAO e da UA.
O nosso objetivo não é confrontar estas Organizações, mas sim mostrar-lhes que existe vontade política para estabilizar o país. A Guiné-Bissau não pode, e não deve, caminhar sozinha.
Hoje a Guiné-Bissau é referida como um país isolado politicamente. Quais são os parceiros privilegiados que a Guiné-Bissau mantém durante esta fase crítica?
A Guiné-Bissau mantém relações históricas e sólidas com vários parceiros, e o nosso trabalho é reforçar esses laços.
Nesta fase crítica, destacaria quatro níveis de parceria. A CEDEAO, que continua a ser o nosso principal espaço político, económico e de segurança; CPLP, com quem preservamos afinidades históricas, culturais e linguísticas; A União Africana, que tem acompanhado de perto a evolução da situação no país; As Nações Unidas, que são um pilar essencial para a estabilização institucional.
Além disso, mantemos diálogo construtivo com parceiros bilaterais, incluindo Senegal, Nigéria, Cabo Verde, Portugal, Espanha, Marrocos, Brasil e China, etc.
O isolamento não é uma inevitabilidade. O que existe é um momento transitório, que estamos a trabalhar para ultrapassar com responsabilidade e transparência.
O seu Ministério vai priorizar o desbloqueio da tensão diplomática com Portugal e prevê o levantamento da interdição que impede os órgãos de comunicação social portugueses de exercer na Guiné-Bissau?
A República da Guiné-Bissau e a República Portuguesa têm uma relação histórica e estratégica que ultrapassa conjunturas políticas.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros considera prioritário restabelecer um diálogo franco, sereno e construtivo com Lisboa. Estamos a trabalhar em três direções. Redução imediata da tensão diplomática, através de canais formais e informais; reabertura da cooperação nos domínios da defesa, educação, saúde e justiça, que são setores onde Portugal sempre desempenhou um papel importante; revisão técnica e jurídica da situação dos OCS portugueses, de forma transparente e coordenada com as autoridades reguladoras.
O objetivo não é criar privilégios nem exceções, mas garantir que todas as empresas portuguesas, ou de outros países, operem na Guiné-Bissau dentro das regras, com segurança jurídica e respeito mútuo.
A nossa prioridade é restaurar a confiança e fortalecer uma parceria que sempre beneficiou ambos os povos.