Guiné-Bissau: Militares barram regresso de Sissoco e Ilídio Té prossegue ascensão

O Alto Comando Militar (ACM) anunciou que não estão reunidas as condições de segurança para o regresso de Umaro Sissoco Embaló à Guiné-Bissau, travando a chegada que o antigo Presidente tinha anunciado para 4 de outubro. A decisão representa um novo sinal de rutura entre Sissoco Embaló e as autoridades de transição, num momento em que o primeiro-ministro, Ilídio Vieira Té, afirma um projeto político próprio e deixa em aberto uma candidatura presidencial.

No comunicado de 1 de outubro, o Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública sustenta que não existem, “por enquanto”, condições para garantir o regresso do ex-chefe de Estado. Justifica a decisão exclusivamente com razões de segurança nacional, preservação da ordem pública e prevenção de situações que possam comprometer a estabilidade e a tranquilidade social.

Os militares reiteram que continuam em vigor as restrições às manifestações, concentrações e aglomerações de natureza política. Advertem ainda que qualquer desacato ou incumprimento será da responsabilidade dos seus autores, sujeitos às consequências previstas na lei, e apelam à colaboração da sociedade civil, das confissões religiosas, das autoridades tradicionais e da comunidade internacional.

A determinação contraria os planos de Sissoco Embaló, que pretendia regressar para disputar as eleições presidenciais, agendadas para 6 de dezembro, em simultâneo com as legislativas, caso se mantenha o calendário anunciado pelas autoridades de transição.

Na resposta divulgada na sua página no Facebook, sob o título “A esperança reside na vitória!”, Sissoco Embaló reconhece que as determinações impedem o seu regresso e pede serenidade aos apoiantes.

“A vida humana está acima de qualquer ambição política”, afirma, apelando a que os simpatizantes evitem comportamentos suscetíveis de provocar instabilidade ou confrontos. Defende que a sua ação deve prosseguir pela via pacífica, democrática e respeitadora da lei.

Sem abandonar a candidatura, manifesta a expectativa de que esta seja apreciada pelas autoridades judiciais com independência e imparcialidade. Admite já não estar numa posição de influência institucional, mas espera que as restrições sejam ultrapassadas e que todos os candidatos possam exercer os seus direitos em liberdade e segurança.

A decisão dos militares adquire particular significado perante as acusações da oposição de que o Alto Comando Militar e o Conselho Nacional de Transição (CNT) estariam sob ordens de Sissoco Embaló. Essa leitura apresentava a transição como um mecanismo destinado a preservar a sua influência e a preparar o seu regresso ao poder. O impedimento agora anunciado contraria esse cenário, embora não esclareça, por si só, a profundidade da rutura.

Os acontecimentos sucedem-se num espaço de poucos dias. A 23 de setembro, as forças de segurança tomaram posse da sede histórica do PAIGC, na Praça dos Heróis Nacionais, junto ao Palácio da Presidência. A apropriação do edifício pelas autoridades ocorreu na sequência da ordem militar que determinava a transferência das instalações partidárias situadas a menos de 500 metros de órgãos de soberania e outras instituições. Na fachada foi colocada uma placa com a indicação “Património do Estado”. O PAIGC contestou a legitimidade e a base legal da medida.

Seguiram-se o desarmamento de estruturas armadas associadas a Sissoco Embaló, saudado pelas organizações cívicas, e o bloqueio ao seu regresso.

Neste contexto, destaca-se a ascensão meteórica de Ilídio Vieira Té. Oriundo do PRS e antigo secretário de Estado do Tesouro, foi nomeado ministro das Finanças por Embaló em julho de 2022. Em novembro de 2025, dirigiu a campanha da plataforma que apoiava o então presidente. Com o golpe militar que travou o anúncio dos resultados eleitorais, Ilídio Té assumiu a chefia do Governo de transição, mantendo a pasta das Finanças.

Da gestão do Tesouro à liderança do Executivo, Ilídio Té deu mais um passo com a construção de uma força partidária própria, o Partido Popular Guineense (PPG). O percurso coloca um antigo homem de confiança de Embaló numa posição de crescente autonomia perante o seu antigo mentor político.

Na entrevista à Forbes África Lusófona, publicada em setembro, Ilídio Té assumiu a responsabilidade pelo PPG e rejeitou a ideia de que o partido serviria de instrumento ao ex-presidente. “No PPG não haverá presidentes ocultos nem centros de decisão paralelos”, afirmou. Começava então a pairar um aroma de rutura.

Quanto às supostas ambições presidenciais, não anunciou uma candidatura, mas também não a excluiu. Declarou-se disponível para servir o país onde considerar ser útil e remeteu qualquer decisão para os órgãos partidários e o momento próprio. Garantiu ainda a separação entre as funções governamentais e a atividade do partido.

Entretanto, o Espaço de Concertação das Organizações da Sociedade Civil e a Frente Popular, que congregam mais de cinquenta organizações, saudaram, num comunicado conjunto de 2 de outubro, o desarmamento de estruturas associadas a Embaló e a interdição do seu regresso. Defendem, contudo, que o antigo presidente volte sob custódia judicial para responder por alegados crimes e violações de direitos humanos.

As plataformas exigem uma investigação independente aos grupos que qualificam como «esquadrão de terror», incluindo a cadeia de comando, a proveniência das armas e a participação em atos de intimidação, perseguição e violência. Reclamam também o escrutínio da atuação de Embaló e do general Biaguê Na N’Tam, antigo chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que, entretanto, decidiu deixar o país.

Mantendo a classificação dos acontecimentos posteriores às eleições de 23 de novembro de 2025 como um “autogolpe militar”, as organizações identificam sinais de rutura com Sissoco Embaló, mas exigem atos concretos. Entre as prioridades estão a libertação dos civis e militares detidos arbitrariamente, a reposição das liberdades públicas e o esclarecimento das mortes de Vigário Luís Balanta e Mamadu Tanu Bari.

Apelam igualmente a um diálogo inclusivo para o regresso à ordem constitucional, com respeito pela vontade popular expressa nas urnas em novembro de 2025. “Não pode haver reconciliação nacional sem verdade, Estado de direito sem justiça, nem justiça com impunidade”, afirmam.

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