O Arcebispo da Arquidiocese de Nampula, Dom Inácio Saure, denunciou esta quarta-feira (3), em conferência de imprensa realizada na cidade de Nampula, a ocupação ilegal e destruição de terrenos pertencentes à Igreja Católica, lamentando a falta de resposta das autoridades judiciais e governamentais, apesar de várias diligências feitas ao longo dos últimos meses.
“Nós fizemos uma reclamação por escrito ao Conselho Municipal que, por sua vez, nos aconselhou a levar o caso ao tribunal. Fizemos queixa ao tribunal, que emitiu uma providência cautelar de restituição provisória de posse datada de 16 de maio de 2025, até hoje sem execução”, declarou o arcebispo, apresentando cópias do documento judicial aos jornalistas presentes.
Segundo Dom Inácio, mesmo após a decisão do tribunal, os oficiais de diligência “não puderam realizar a sua missão” por terem sido “escoraçados pelos ocupantes dos terrenos”, impedindo a execução da ordem de restituição.
Durante a conferência, o líder religioso revelou que no passado dia 12 de agosto teve um encontro com o governador da província de Nampula, ocasião em que o próprio governador apresentou desculpas formais à Igreja Católica “pelas blasfémias contra Jesus Cristo proferidas pelo secretário provincial dos antigos combatentes”, uma oportunidade para também serviu para expressar directamente ao governante a preocupação com os terrenos do seminário, da paróquia e do mosteiro das irmãs, todos alegadamente invadidos.
“Porque só hoje se aquilo começou nas manifestações? Porque acreditava na possibilidade de resolução do problema sem recusa obstinada dos ocupantes em abandonar os terrenos”, explicou o arcebispo, afirmando que “Esta arrogância com que eles negam leva-nos a admitir a hipótese da existência de uma mão invisível de poderosos, de intocáveis, que encorajam estes crimes.”
Entre os prejuízos apontados, Dom Inácio destacou a destruição de um muro de vedação do seminário filosófico e a devastação de várias culturas agrícolas que sustentavam os seminaristas “Foram destruídas culturas de arroz, batata-doce, mandioca, derrubados cajueiros… e camiões vinham transportar os paus,” denunciou.
O arcebispo lembrou que a Arquidiocese de Nampula continua privada de diversas infraestruturas que são, segundo ele, propriedade legítima da Igreja Católica, incluindo o edifício onde funciona a Universidade Rovuma, em Napipine, e o Hospital Geral de Marere “Já falei com altas individualidades do país, mas infelizmente nada acontece,” lamentou.
Num tom de indignação, Dom Inácio lançou um apelo veemente à sociedade “Perante esta situação, nada me resta senão lançar um forte apelo, um apelo de socorro a pessoas de boa vontade, não só em Nampula, mas em Moçambique inteiro, no mundo inteiro, porque a lei parece que já não serve nesta terra. Parece que alguém quer fazer de Moçambique uma aldeia sem lei. A lei aqui não funciona”, desabafou repetindo a frase várias vezes.
O líder da Igreja Católica em Nampula encerrou sua intervenção reiterando que a defesa dos direitos da Igreja é, acima de tudo, uma defesa dos mais pobres “Falo dos direitos dos pobres, porque a Igreja e as suas ordens estão ao serviço dos pobres”, terminou.