Moçambique: Bispos apelam à paz, ao “direito à manifestação pacífica” e para se evitar “derramamento de sangue”

No dia em que estão marcadas manifestações para todo o país, com especial foco na cidade de Maputo, em protesto pelo resultado das eleições gerais e presidenciais de 9 de Outubro, que deram a vitória ao candidato da Frelimo, os bispos apelam ao diálogo e que se evite o “derramamento de sangue”. Numa mensagem vídeo, recebida pela Fundação AIS, D. João Carlos Nunes, arcebispo coadjutor de Maputo, apela “à paz, tolerância e respeito à vida”.

Moçambique tem vivido tempos de grande ebulição social após a divulgação dos resultados das eleições gerais e presidenciais de 9 de Novembro, que deram a vitória ao candidato da Frelimo, no poder desde 1975, mas cujos resultados têm sido fortemente contestados, com destaque para Venâncio Mondlane, líder do partido Podemos e que ficou classificado em segundo lugar. Segundo a Comissão Nacional de Eleições, o candidato da Frelimo, Daniel Chapo, teve 70,67% dos votos, e Mondlane ficou-se pelos 20,32%.

Esta contestação deu origem já a diversos momentos de violência, com destaque para o assassinato, a tiro, em plena cidade de Maputo, de dois colaboradores próximos do líder do Podemos. Entretanto, tem havido a convocação de diversas manifestações um pouco por todo o país. É no sentido da prevenção de actos de violência que D. João Nunes divulga a sua mensagemO prelado afirma que os Bispos sentem “a urgência” de se dirigirem a todos os cidadãos com “um apelo à paz, tolerância e respeito à vida”, alertando que os vários desafios que a sociedade moçambicana enfrenta nunca serão transformados “através do caminho da violência”.

O arcebispo coadjutor de Maputo diz ainda, na mensagem recebida pela Fundação AIS, que todas as mudanças desejadas para o país só podem ser realizadas “através do diálogo, da tolerância e da busca incansável por soluções justas”. Só assim se construirá o país “almejado por todos”.

BISPOS JÁ DENUNCIARAM “FRAUDE” ELEITORAL

O prelado recorda ainda o recente comunicado emitido pela Conferência Episcopal e apela ao direito à manifestação pacífica e para se evitar ações “de vandalismo e desestabilização”. A mensagem termina com um apelo “ao respeito à vida de cada pessoa, e não usar a violência para abafar o anseio dos manifestantes, evitando o derramamento de sangue”.

O comunicado referido por D. João Carlos Nunes foi emitido a 22 de Outubro pela Conferência Episcopal de Moçambique e já apelava à “coragem para o diálogo” no seguimento das eleições gerais que, segundo os bispos, indiciavam uma “fraude grosseira”. O documento, também enviado para a Fundação AIS, referia que nas eleições se repetiram os “enchimentos de urnas, editais forjados e tantas outras formas de encobrir a verdade”.

Os bispos alertavam já então para o facto de estas “irregularidades e fraudes, a grosso modo impunemente praticadas, reforçarem a falta de confiança nos órgãos eleitorais”. O documento fazia referência ainda ao assassinato dos dois dirigentes do Podemos, como tendo sido um acontecimento “bárbaro”, e terminava com um “forte apelo para que travemos a violência, os crimes políticos e o desrespeito pela democracia”.

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