Moçambique tornou-se o primeiro país do mundo a retomar a vacinação preventiva contra a cólera, após mais de três anos de suspensão das campanhas globais devido à escassez de vacinas. O anúncio foi feito esta quarta-feira pela Aliança Global para Vacinas (Gavi), pelo Unicef e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), na sequência do aumento significativo da produção internacional de imunizantes.
A retoma ocorre num contexto particularmente desafiante, marcado por um surto ativo de cólera e pelas consequências das cheias recentes, que afectaram mais de 700 mil pessoas e provocaram danos em sistemas de saúde e de abastecimento de água. Segundo a OMS, a falta de vacinas nos últimos anos obrigou a respostas essencialmente reativas, centradas no controlo de surtos, situação que agora começa a ser revertida.
No âmbito desta nova fase, foram distribuídas 20 milhões de doses de vacina oral contra a cólera para campanhas preventivas. Deste total, 3,6 milhões de doses foram destinadas a Moçambique, sendo as restantes alocadas à República Democrática do Congo e ao Bangladesh. A produção anual global duplicou, passando de 35 milhões de doses em 2022 para quase 70 milhões em 2025, com financiamento da Gavi e distribuição assegurada pelo Unicef.
Apesar do avanço, as agências das Nações Unidas alertam que a vacinação é apenas uma das componentes da resposta à cólera. A doença, transmitida por água e alimentos contaminados, continua a registar números elevados a nível mundial, com mais de 600 mil casos e cerca de 6.700 mortes notificadas em 2024. A OMS sublinha a necessidade de investimentos sustentados em água, saneamento e higiene, vigilância epidemiológica e envolvimento comunitário para travar a transmissão a longo prazo.