Cabo Verde: José Maria Neves e Presidente de Portugal defendem nova etapa da parceria económica assente no investimento, inovação e integração regional

Os Presidentes da República de Cabo Verde, José Maria Neves, e de Portugal, António José Seguro, defenderam esta quarta-feira uma nova etapa na cooperação económica entre os dois países, centrada na execução de projetos, no reforço do investimento privado, na inovação e na transformação das afinidades históricas em prosperidade partilhada. As posições foram expressas na sessão solene de abertura do Fórum Económico e Empresarial Cabo Verde–Portugal, realizada no âmbito da visita de Estado do Presidente português a Cabo Verde.

Na abertura do Fórum, José Maria Neves afirmou que as relações entre os dois países assentam numa base sólida de confiança construída sobre valores comuns, como a democracia, o Estado de direito, a estabilidade institucional e o respeito pelas liberdades fundamentais. Defendeu que essa relação deve agora servir para projetar uma agenda económica mais ambiciosa, capaz de responder aos desafios do século XXI.

“O setor privado assume um papel verdadeiramente determinante. É através da iniciativa empresarial, da capacidade de inovar, de investir e de criar emprego que se geram riqueza, oportunidades e desenvolvimento sustentável”, afirmou o Chefe de Estado cabo-verdiano.

José Maria Neves sustentou que Cabo Verde deve afirmar-se como uma plataforma atlântica de estabilidade, conectividade e negócios, aproveitando a sua localização geoestratégica, a segurança jurídica e a integração na Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). Nesse sentido, apelou aos empresários portugueses para olharem para o arquipélago não apenas como um pequeno mercado, mas como uma porta de entrada para toda a África Ocidental.

O Presidente cabo-verdiano defendeu ainda uma nova agenda de cooperação baseada em “mais ousadia, mais inovação, mais sofisticação e, sobretudo, mais eficiência na execução e mais eficácia nos resultados”, identificando como áreas prioritárias a economia azul, os transportes, a produção de água, a indústria farmacêutica, as energias renováveis, a transição digital, a saúde, o ensino superior e a investigação científica.

Ao destacar exemplos concretos da cooperação bilateral, referiu o Programa de Transplante Renal desenvolvido com o apoio de Portugal, a parceria com o Hospital de Santo António, do Porto, e a colaboração existente entre a Universidade de Cabo Verde e instituições portuguesas, defendendo o aprofundamento da cooperação nas áreas da saúde, da ciência e da inovação.

José Maria Neves valorizou igualmente o papel das comunidades cabo-verdiana em Portugal e portuguesa em Cabo Verde, considerando-as pontes humanas, culturais e económicas fundamentais para o fortalecimento da parceria entre os dois países.

Na mesma sessão, o Presidente da República Portuguesa sublinhou que Cabo Verde e Portugal estão ligados por “uma relação singular, feita de história, língua e cultura”, mas sobretudo pelas pessoas e pelas comunidades que aproximam diariamente os dois povos.

O Chefe de Estado português assinalou que o comércio bilateral de bens e serviços entre os dois países se aproximou de mil milhões de euros em 2025, considerando que esses indicadores demonstram uma relação empresarial sólida e recíproca, mas advertiu que “os números são um ponto de partida, não um ponto de chegada”.

“Precisamos de passar das trocas comerciais para parcerias estratégicas. De transformar comércio em investimento produtivo. E de orientar esta relação para melhores resultados”, afirmou.

O Presidente português identificou quatro desafios prioritários para aprofundar a cooperação económica bilateral.

O primeiro passa pela execução dos instrumentos financeiros acordados na VII Cimeira Bilateral, realizada em Lisboa, em janeiro de 2025, destacando a linha de crédito até 100 milhões de euros para projetos empresariais e o mecanismo de conversão de dívida em investimento climático, no valor de 42,5 milhões de euros, destinado ao Fundo Climático e Ambiental de Cabo Verde.

Segundo explicou, esses mecanismos devem traduzir-se em investimentos concretos, criação de emprego, aumento das exportações e melhoria das condições de vida da população. Referiu, como exemplos em curso, o reforço da Central Fotovoltaica do Palmarejo e um segundo projeto destinado a alimentar com energia solar estações elevatórias e furos de captação de água na ilha de Santiago.

O segundo desafio, afirmou, consiste em diversificar o investimento português. Embora reconheça o turismo como um dos pilares da economia cabo-verdiana, defendeu que os novos empreendimentos devem impulsionar igualmente setores como a agricultura, as pescas, a indústria alimentar, a cultura, os transportes e os serviços digitais.

Sublinhou igualmente a importância dos transportes marítimos e aéreos para a integração do mercado nacional, defendendo investimentos em portos, logística e cadeias de frio que permitam reduzir custos, melhorar os serviços e integrar todas as ilhas no processo de desenvolvimento económico.

O terceiro desafio identificado prende-se com a água e a energia, consideradas prioridades económicas e de soberania. O Presidente português assegurou que Portugal está disponível para colocar ao serviço de Cabo Verde a experiência adquirida nos Açores e na Madeira em áreas como energias renováveis, armazenamento de energia, dessalinização e reutilização da água.

“Sem água não haverá agricultura moderna, segurança alimentar ou turismo sustentável. Sem energia fiável e competitiva não haverá indústria, serviços digitais ou novo investimento”, afirmou.

Como quarto desafio, destacou a necessidade de produzir inovação em conjunto, valorizando o potencial do TechPark, da governação digital e do talento jovem cabo-verdiano.

“A nossa ambição não deve ser apenas levar tecnologia portuguesa a Cabo Verde. A nossa ambição é desenvolver tecnologia com Cabo Verde”, declarou, defendendo o reforço das parcerias entre empresas, universidades, centros tecnológicos e startups.

O Presidente português apelou ainda à construção de uma plataforma atlântica de dois sentidos, através da qual Cabo Verde possa aproximar as empresas portuguesas da África Ocidental e Portugal facilite o acesso das empresas cabo-verdianas ao mercado europeu.

Nesse contexto, defendeu mais parcerias empresariais, maior participação de fornecedores locais, transferência de conhecimento, formação de quadros, participação de capital cabo-verdiano e mobilização da diáspora como fonte de investimento, conhecimento e redes empresariais.

Referiu ainda que a V Conferência da Década do Oceano, na Boa Vista, e a realização, em dezembro, do primeiro evento da marca Web Summit em África representam oportunidades para reforçar a cooperação nos domínios da economia azul, da inovação, da tecnologia e do empreendedorismo.

Na conclusão da sua intervenção, sustentou que “o sucesso desta nova etapa não será medido pelo número de declarações assinadas”, mas pelos projetos concretizados, pelas empresas criadas, pelos empregos qualificados, pelas exportações geradas e pela melhoria das condições de vida das populações.

Também José Maria Neves encerrou a sua intervenção com um apelo ao aprofundamento da cooperação entre os dois países, defendendo que este é o momento de “transformar as afinidades que herdámos da História em oportunidades concretas de crescimento, inovação e prosperidade partilhada”.

O Fórum Económico e Empresarial Cabo Verde–Portugal prossegue com um painel dedicado ao tema “Parcerias e Novas Oportunidades de Negócios para Crescer Juntos”, centrado nos incentivos ao investimento privado, no ambiente de negócios e em novos projetos nas áreas do turismo, indústria, energias renováveis e facilitação do investimento, reunindo empresários, instituições e representantes das câmaras de comércio dos dois países.

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