O assassinato do jovem seminarista, de 21 anos, raptado na Diocese de Auchi, ocorre menos de duas semanas depois da morte violenta do Padre Sylvester Okechukwu, na Diocese de Kafanchan, também na sequência de um rapto. A Nigéria registou já três vezes mais raptos de clérigos e religiosos nos primeiros três meses deste ano do que no mesmo período de 2024.
Terminou da pior maneira o “sequestro dramático” na Diocese de Auchi, em que homens armados levaram à força, dia 3 de março, após troca de tiros com responsáveis da segurança do edifício da Igreja Católica de São Pedro, em Iviukwa, um padre e um seminarista.
O sacerdote, Philip Ekweli, seria libertado a 13 de março, estando agora a receber “cuidados médicos adequados”, mas o seminarista, Peter Andrew, não teve essa sorte e foi “assassinado de forma horrível”, segundo um comunicado da diocese enviado para a Fundação AIS Internacional. Este foi o segundo assassinato de um membro da Igreja católica na Nigéria no espaço de menos de duas semanas depois da morte violenta, também na sequência de um rapto, do Padre Sylvester Okechuckwu, da Diocese de Kafanchan.
No referido comunicado, assinado pelo Padre Agyelewa, diretor de comunicação da Diocese de Auchi, o Bispo de Auchi, D. Gabriel Ghiakhomo Dunia, expressa a gratidão por toda a solidariedade recebida durante o cativeiro dos dois membros da Igreja, mas denuncia a “deterioração da situação de insegurança” na região do Edo Norte e em outras partes do estado de Edo, que se foi transformando num “refúgio seguro para os sequestradores”. O prelado afirma que as populações se sentem “desamparadas e abandonadas” e exorta o governo a tomar medidas de segurança para garantir a vida e os bens das pessoas. “A vida tem sido um inferno para o nosso povo nos últimos tempos”, afirma o Bispo. “As pessoas não estão seguras nas estradas, nas suas quintas e até mesmo em suas casas”, diz ainda, concluindo que tudo isto “é inaceitável”.
O ASSASSINATO DO PADRE SYLVESTER
O assassinato do seminarista ocorre poucos dias depois do desfecho também dramático de mais um caso de rapto de um sacerdote na Diocese de Kafanchan. O Padre Sylvester Okechukwu, recorde-se, foi raptado da sua residência a 4 de março e encontrado morto na madrugada seguinte, embora ainda não se saiba por que razão os raptores decidiram matá-lo. Numa declaração enviada à Fundação AIS, D. Julius Yakubu Kundi, bispo de Kafanchan, descreve a tremenda dor sentida por toda a diocese e apela, tal como aconteceu agora com o Bispo de Auchi, às autoridades para que se preocupem com a insegurança que reina em todo o estado de Kaduna.
Com profunda dor e justa indignação, condeno nos termos mais fortes a incessante e trágica onda de raptos contra padres, agentes pastorais e fiéis da nossa diocese.”
O bispo acrescenta que este último incidente, com o Padre Sylvester, foi “um ataque cruel à nossa fé, à nossa humanidade e à paz do nosso estado”. Referindo que a diocese está angustiada com toda esta violência, e que o país está “cheio de raiva”, o prelado deixa mesmo algumas perguntas inquietantes: “Até quando os nossos pastores e irmãos continuarão a ser perseguidos como presas? Até quando os nossos locais de culto se tornarão locais de medo em vez de santuários de esperança?”.
Sinal da inquietação que se vive nesta região da Nigéria, desde 2021, a diocese de Kafanchan tem sofrido pelo menos o assassinato de um agente pastoral por ano.
AMEAÇAS À IGREJA NA NIGÉRIA
Todos estes casos são infelizmente frequentes neste país de África. No relatório da Fundação AIS “Perseguidos e Esquecidos?”, publicado em Novembro do ano passado, a Fundação AIS destaca precisamente a situação da Nigéria como uma das mais graves da atualidade no que diz respeito à perseguição aos cristãos.
O relatório, que compreende uma análise ao que se passou entre os anos de 2022 e 2024, aponta o grupo terrorista Boko Haram e os pastores nómadas Fulani como tendo a maior responsabilidade pela violência contra esta comunidade religiosa, embora se reconheça alguma eficácia no combate aos grupos armados.“A Nigéria ocupa o oitavo lugar no Índice Global de Terrorismo de 2024. Os insurgentes militantes Fulani no centro do país cometeram regularmente massacres e outras atrocidades violentas. Apesar de o Boko Haram e o Autoproclamado Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP) continuar activo nas regiões do Norte, tem havido uma diminuição dos ataques, em parte devido aos esforços de contra-insurgência das forças armadas da Nigéria”, pode ler-se no documento.
Paulo Aido e Filipe D’Avillez – Fundação AIS