A crise humanitária no Sudão está a criar uma realidade cada vez mais perigosa para mulheres e meninas, que enfrentam riscos extremos no acesso a serviços básicos como a água. Em El Obeid, no centro do país, muitas mulheres são obrigadas a escolher entre procurar água durante o dia, sob ameaça de ataques com drones, ou esperar pela noite, quando aumentam os riscos de assédio e violência sexual.
Segundo a ONU Mulheres, os ataques contra pontos de abastecimento de água agravaram uma situação já marcada pelo conflito armado, pela deslocação de populações e pela falta de serviços essenciais. A organização alertou que muitas mulheres passaram a deslocar-se durante a noite na esperança de evitar os bombardeamentos, mas acabam expostas a violações e outras formas de violência de género.
A directora regional da ONU Mulheres para África Oriental e Austral, Anna Mutavati, denunciou que este padrão de violência repete atrocidades já registadas noutras zonas do país, incluindo El Fasher. A responsável afirmou que a utilização crescente de drones aproximou ainda mais a guerra da população civil, colocando infraestruturas fundamentais, como sistemas de água, na linha de fogo.
O conflito, que se prolonga há cerca de três anos, agravou também a crise alimentar e sanitária no Sudão. De acordo com a ONU, só nos primeiros quatro meses de 2026 os ataques com drones provocaram a morte de pelo menos 880 civis. Ao mesmo tempo, doenças como a cólera continuam a espalhar-se, enquanto a desnutrição e a falta de acesso a cuidados médicos aumentam os riscos para milhões de pessoas deslocadas, sobretudo mulheres e crianças.
A ONU Mulheres revelou ainda que o número de mulheres e meninas que necessitam de serviços relacionados com violência de género quadruplicou desde o início da guerra, atingindo cerca de 12,7 milhões de pessoas em 2026. A organização alertou para a redução do financiamento das entidades lideradas por mulheres, que têm sido uma das principais redes de apoio às comunidades afectadas, e apelou a um cessar-fogo imediato, ao reforço da ajuda humanitária e à responsabilização dos autores de crimes contra civis.