As bolsas norte-americanas registaram fortes quedas esta segunda-feira, com o índice S&P 500 a aproximar-se oficialmente do território de mercado em baixa, após desvalorizar mais de 20% face ao seu pico de fevereiro. O colapso foi desencadeado pelas tarifas adicionais anunciadas pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, reacendendo o medo de uma recessão global.
Durante a sessão europeia, os futuros do S&P 500 afundaram abaixo do limiar simbólico dos 5.000 pontos. A confirmar-se a trajetória, o índice juntará o Nasdaq 100, que entrou em mercado em baixa na sexta-feira, fortemente penalizado pela queda das ações tecnológicas.
Segundo analistas do BBVA, o recuo atual poderá vir a ser registado como um dos piores episódios de venda em dois dias desde a criação do S&P 500, em 1957.
Só nas últimas três sessões, o índice já caiu 12,5%, alimentando comparações com episódios como o crash de 2008 ou a Segunda-feira Negra de 1987.
As chamadas “Sete Magníficas” — Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet, Meta, Tesla e Nvidia — perderam mais de 2 biliões de dólares em valor de mercado. Só a Apple, a maior cotada do mundo, perdeu 15% em três dias, a maior queda desde a crise financeira.
A venda generalizada alastrou-se aos mercados globais.
Na Ásia, o índice Hang Seng de Hong Kong caiu 13%, a maior queda diária desde 1997. No Japão, o Nikkei 225 afundou 8%.
As bolsas europeias seguiram a tendência: o Euro Stoxx 50 perdeu 4%, enquanto Frankfurt, Paris, Milão e Madrid registaram perdas entre os 3,5% e os 4,8%.
A J.P. Morgan elevou para 60% a probabilidade de uma recessão global, alertando para os riscos inflacionistas internos causados pelas tarifas e para o efeito dominó de medidas protecionistas semelhantes. Também o economista-chefe do Goldman Sachs, Jan Hatzius, reviu em alta a probabilidade de recessão nos EUA para 45%, sublinhando o abrandamento do investimento empresarial e a crescente incerteza geopolítica.
Segundo Hatzius, caso todas as tarifas sejam implementadas, a taxa efetiva de impostos sobre as importações poderá subir 20 pontos percentuais, o que obrigaria a uma revisão nas previsões de crescimento económico.
Em Bruxelas, cresce a pressão para que a União Europeia reaja.
Alguns analistas alertam, no entanto, para o risco de uma escalada prejudicial.
Outros especialistas sugerem que o bloco europeu opte por uma abordagem mais diplomática, evitando o aumento da inflação e do descontentamento social.
Entre as opções está o uso do Instrumento Anticoerção (ACI), criado para responder a práticas económicas hostis, embora o seu uso continue pouco claro.
Entretanto, vários analistas alertam para os efeitos colaterais de uma guerra comercial prolongada, como o aumento do dumping por parte de exportadores asiáticos ou o impacto na política monetária.
Andrea Milani, do Intesa Sanpaolo, sublinha que os bancos centrais terão de decidir se priorizam o controlo da inflação ou o estímulo ao crescimento.
Esta decisão poderá definir os próximos meses.