Reino Unido: Carla Barreto candidata-se a cargo de destaque em Norfolk após prémio nacional de excelência em Thetford

Imagem: Carla Barreto é candidata nas eleições de 7 de maio para o Norfolk County Council. Fotos: João Abreu Photography

Carla Barreto, portuguesa e atual mayor de Thetford, no condado inglês de Norfolk, localizado na zona Este de Inglaterra, foi chamada a candidatar-se às eleições de 7 de maio para o Norfolk County Council, num momento em que o município de Thetford recebeu o Prémio de Ouro de Qualidade da Associação Nacional de Municípios britânica (NALC), uma distinção nacional reservada a autoridades locais de excelência.

Em entrevista exclusiva à nossa reportagem, Carla Barreto analisou o atual momento político, explicou o significado do prémio conquistado por Thetford e refletiu sobre o percurso que a levou a tornar-se uma das portuguesas mais visíveis e respeitadas na governação local britânica. A autarca começou por recordar o seu percurso institucional.

“Sou mayor em Thetford, que é em Norfolk, na zona Este da Inglaterra, desde maio de 2019, foi quando fui eleita pela primeira vez como Independente na Comunidade”, afirmou, acrescentando que já foi reeleita e que se encontra agora “no segundo mandato”.

Sobre a diferença entre os sistemas britânico e português, esta responsável explicou que o cargo de mayor “é o correspondente ou paralelo a um presidente de Câmara português”, embora com funções distintas. Segundo detalhou, enquanto que em Portugal existe um mandato executivo de quatro anos, no Reino Unido “o mayor é muito mais cerimonial, é mais um papel e uma posição histórica”, sendo normalmente eleito por um ano entre os membros do conselho local.

Carla Barreto esclareceu ainda o calendário político atual.

“Como mayor atuo por um ano. Tendo sido eleita em maio do ano passado, termino o meu mandato em maio deste ano”, disse, acrescentando que continuará eleita local até 2027, podendo depois decidir se volta a candidatar-se.

Ao abordar a comunidade portuguesa na localidade, a autarca sublinhou o peso demográfico dos portugueses residentes em Thetford.

“Thetford é uma cidade de pequeno médio tamanho, acima dos 30 mil habitantes, mas metade da população fala uma segunda língua ou tem descendência de outros países”, referiu. Dentro desse universo multicultural, sustentou que “os portugueses ou as línguas portuguesas constituem a ser o maior número”, sendo que “um terço da população, essencialmente, fala ou tem familiares portugueses”.

Sobre a sua relação com a comunidade, Carla Barreto afirmou ser “boa, pois sou bastante conhecida”, explicando que o seu percurso começou no trabalho social, quando criou, juntamente com o seu marido e outros elementos “um grupo de apoio à comunidade”, desenvolvido ao longo de quase 20 anos.

Neste sentido, esta responsável considera que a sua entrada na política “foi uma progressão desse trabalho na comunidade”.

“As pessoas conheciam-me pelo trabalho que eu fazia, por ajudar os outros, por estar envolvida em trabalhos com os jovens, com os idosos”, declarou, acrescentando que os residentes “já me conheciam a mim, a Carla, não necessariamente a portuguesa ou a imigrante que se estava a candidatar”.

Carla Barreto destacou igualmente o simbolismo da sua eleição.

“Sou para já a única não-britânica neste council”, afirmou, acrescentando que foi “a primeira portuguesa, a primeira imigrante, primeira não-britânica a tomar posse como mayor”.

Segundo a própria, essa realidade coloca-a “num ponto estratégico, por um lado, e, ao mesmo tempo, difícil”. Ainda assim, encara o feito com orgulho.

“Ser a primeira é sempre algo interessante, é algo de motivo de orgulho”, enfatizou.

Carla Barreto reconheceu também obstáculos num meio tradicionalmente conservador.

“Há sempre uma minoria que não é favorável”, disse, referindo-se ao facto de ser estrangeira e mulher num espaço onde o perfil típico ainda é “um senhor de mais idade, branco, britânico”. Apesar disso, realçou que “a maioria do feedback é bom” e que muitos residentes veem com bons olhos “ter uma pessoa que representa esse segmento da comunidade”.

Prémio nacional reconhece “excelência da governação local” em Thetford

Sobre a conquista recente de Thetford, município distinguido com o Prémio de Ouro de Qualidade atribuído pela Associação Nacional de Municípios britânica, Carla Barreto explicou que se trata de um reconhecimento “de bastante prestígio nacional”, indicando que existem “milhares de autoridades locais pelo Reino Unido” e que apenas cerca de 50 recebem esta certificação.

Segundo explicou, a distinção é atribuída por uma entidade independente que avalia “a performance e as melhorias nas autoridades locais”, premiando as que demonstraram “o melhor impacto e as melhores melhorias”, numa análise que inclui áreas como “as finanças, a transparência das finanças e da parte legal, da parte operacional da Câmara”, bem como o impacto comunitário, projetos desenvolvidos e capacidade de concretização.

Carla Barreto recordou ainda outro sucesso recente do município.

“Durante o meu mandato também fomos reconhecidos pela primeira vez com um prémio como o melhor council desta área” no domínio de zonas verdes, flores, preservação da natureza e espaços paisagísticos. Na sua leitura, o novo galardão vem realmente clarificar que “houve trabalho que foi feito e foi melhorado”.

Apesar disso, a autarca recusa personalizar o mérito.

“Eu não posso simplesmente dizer que isto é porque fui eu que o fiz”, afirmou, sublinhando que “num ano não se pode fazer tudo” e que o resultado pertence ao esforço conjunto de vereadores, funcionários e equipas técnicas: “Isto é um prémio coletivo”, resumiu.

Ainda assim, admite satisfação pelo reconhecimento surgir durante o seu mandato.

“Posso dizer que melhorou a condição daquilo que tínhamos”, declarou, acrescentando que sai do cargo em maio deixando “o council em bom estado e com certificações”.

“Quando as pessoas se lembrarem ou puderem mencionar durante o tempo que lá estive, que o reconheçam com algum carinho e saber que pelo menos fiz o melhor que pude enquanto lá estive”, concluiu.

“Papel ativo” na decisão e representação local

Caso seja eleita no dia 7 de maio para o Norfolk County Council, Carla Barreto passará a integrar, enquanto vereadora num conselho de condado, um dos mais relevantes órgãos regionais de governação local em Inglaterra, com competências em áreas como ação social, educação, estradas, planeamento e supervisão de serviços públicos.

Segundo apurámos, no exercício do cargo, terá também intervenção direta na definição de políticas e prioridades estratégicas, participando na elaboração de orçamentos e na tomada de decisões com impacto no dia a dia das populações. Será igualmente responsável por representar os interesses dos residentes, acompanhando preocupações da comunidade e articulando com os serviços públicos.

A função exigirá ainda não apenas uma ligação próxima aos cidadãos, assumindo-se como elo entre a população e o órgão executivo, ao longo de um mandato de quatro anos, mas também um papel de acompanhamento e escrutínio da atividade do conselho, garantindo “transparência e boa gestão”.

Fontes indicam que a eventual eleição poderá representar “mais um marco para a comunidade portuguesa no Reino Unido”, reforçando a “influência lusa na vida política britânica”.

Ígor Lopes

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