Ucrânia: Testemunhos relatam condições brutais devido a ataques russos à infraestrutura energética

Nova investigação da Amnistia Internacional conta as histórias de civis ucranianos que vivem com as consequências dos ataques russos massivos e incessantes, que causaram perturbações generalizadas e contínuas aos serviços essenciais.

“A Rússia não está apenas a travar uma guerra de agressão contra a Ucrânia, está a submeter toda a população civil a uma campanha de extrema crueldade. A escala e a intensidade dos seus ataques a infraestruturas energéticas vitais indicam claramente uma estratégia para espalhar o desespero” – Agnès Callamard

A Ucrânia perdeu mais de metade da sua capacidade de produção e cortes de energia de emergência afetaram 80 por cento do país. Isto aconteceu num inverno em que as temperaturas caíram abaixo de -15°C.

A Amnistia Internacional documentou o impacto devastador dos ataques sistemáticos da Rússia ao sistema energético da Ucrânia numa nova série de testemunhos de sobreviventes que enfrentam um inverno rigoroso, sem aquecimento, eletricidade ou água corrente. Com base nos testemunhos de dezenas de pessoas de todo o país, a investigação conta as histórias de civis ucranianos que vivem com as consequências dos ataques russos massivos e incessantes, que causaram perturbações generalizadas e contínuas aos serviços essenciais.

Na altura das entrevistas, muitos dos que falaram com a Amnistia Internacional tinham sobrevivido semanas com fornecimento de eletricidade intermitente ou sem eletricidade e sem aquecimento, no inverno mais frio do país desde o início da invasão russa em grande escala.

“A Rússia não está apenas a travar uma guerra de agressão contra a Ucrânia, está a submeter toda a população civil a uma campanha de extrema crueldade. A escala e a intensidade dos seus ataques a infraestruturas energéticas vitais indicam claramente uma estratégia para espalhar o desespero entre a população civil ucraniana e quebrar o seu moral”, afirmou Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia Internacional.

“As manchetes dos jornais não conseguem transmitir a experiência de tentar sobreviver sem eletricidade, água corrente e aquecimento durante um longo e gelado inverno e no meio de ataques aéreos noturnos. Hoje, enquanto contamos essas histórias, os ataques implacáveis da Rússia continuam e as condições humanitárias na Ucrânia tornam-se cada vez mais catastróficas”, apontou a responsável.

“Desde o início da sua invasão da Ucrânia, a Rússia tem descaradamente ignorado o direito internacional, incluindo as regras que protegem os civis em tempo de guerra. Os responsáveis por crimes atrozes devem saber que esses crimes não têm prazo de prescrição. As pessoas na Ucrânia e além dela procurarão incansavelmente a verdade, a justiça e a reparação, e nós apoiá-las-emos”, disse Agnès Callamard.

Desde outubro passado, a Rússia levou a cabo várias centenas de intensos ataques aéreos de longa distância contra a Ucrânia. Em janeiro, estes ataques eram diários – e muitas vezes noturnos – e visaram toda a infraestrutura energética. Como resultado, a Ucrânia perdeu mais de metade da sua capacidade de produção e cortes de energia de emergência afetaram 80 por cento do país. Isto aconteceu num inverno em que as temperaturas caíram abaixo de -15 °C.

Os entrevistados e os funcionários da Amnistia Internacional na Ucrânia falaram de blocos de apartamentos gelados, tubagens congeladas e rebentadas, elevadores parados, telemóveis descarregados e redes telefónicas interrompidas. Como disse uma das entrevistadas: “Neste momento, estamos em modo de sobrevivência extrema”.

Muitos residentes têm recorrido a acampamentos e fogões a querosene para aquecer tijolos e garrafas de água. Alguns têm recorrido a mecanismos de sobrevivência perigosos, como montar tendas de acampamento dentro dos seus quartos e acender velas dentro delas para combater o frio.

Svitlana, uma pensionista de Kiev, disse que, durante os apagões, aquece “um pouco de água numa chávena num fogão a querosene”, enche “duas garrafas, uma [vai] debaixo dos meus pés, a outra nas minhas mãos, para não congelar. E todos dormimos vestidos… Vestidos debaixo dos edredões, vestimos tudo o que temos”.

Há muitas pessoas, incluindo idosos e pessoas com deficiência, que estão isoladas e confinadas nos seus apartamentos, sem qualquer meio de comunicação, cujas circunstâncias são provavelmente muito piores do que as documentadas nesta investigação e que podem não sobreviver a este inverno para contar a sua história.

A Amnistia Internacional documentou violações generalizadas dos direitos humanos internacionais e do direito humanitário na Ucrânia desde o início da invasão em grande escala da Rússia, a 24 de fevereiro de 2022, incluindo crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

A invasão em grande escala da Rússia constitui uma agressão, o que é um crime ao abrigo do direito internacional. A sua estratégia e táticas, incluindo o uso contínuo de armas indiscriminadas e o alvejamento deliberado de civis, causaram sofrimento humano generalizado e afetaram gravemente as pessoas mais vulneráveis da Ucrânia, incluindo crianças e idosos.

A escala e o padrão dos ataques aéreos russos em todo o país indicaram claramente que este país tem procurado danificar a infraestrutura energética da Ucrânia.

Amnistia Internacional

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