20 razões por que Israel perdeu a guerra com o Irão

A guerra entre Israel e o Irão, que estava em ebulição há décadas, foi lançada por Benjamin Netanyahu no dia 13 de Junho e durou 12 dias. Este conflito fez mais de 650 mortos e cerca de 2 mil feridos iranianos, a maioria mulheres e crianças, e 28 mortos e mais de 3 mil feridos Israelitas. Israel tem agora 9 mil civis internamente deslocados e dezenas de milhares de cidadãos fora do país, após terem fugido do território durante a guerra, que causou também destruição de infraestruturas de vários milhões de dólares.

Durante a guerra, viveu-se um impasse imposto por ambos os lados. Israel estava determinado a continuar as agressões até eliminar os alvos nucleares em território Iraniano e possivelmente intensificar o conflito caso os EUA entrassem na guerra numa ação conjunta com os israelitas. Netanyahu por diversas ocasiões, manifestou abertamente o desejo da participação norte-americana na guerra contra o Irão para reforçar a possibilidade de eliminar por completo as capacidades militares e planos nucleares Iranianos, incluindo a destruição da central de enriquecimento de combustível de Fordow, e de forçar uma mudança no regime governamental e consequente expansão no domínio regional.

Por seu lado, o Irão recusou-se a cessar as suas ofensivas enquanto Israel não parasse de atacar o seu território e Teerão continuasse sem garantias de haver um acordo razoável com Washington relativamente aos planos nucleares, que incluem o enriquecimento de urânio.

A participação direta dos EUA poderia não só escalar o conflito e ampliar as dimensões do mesmo, mas também criar sérios riscos de segurança para centenas de milhões de pessoas na região, uma crise humanitária sem precedentes e custos económicos incalculáveis a nível global. Trump tinha desde há meses afirmado que o Irão não poderia ter armas nucleares e que não teria paz enquanto não aceitasse os termos impostos por Washington.

O Presidente dos EUA, que espera poder beneficiar economicamente das novas sinergias comerciais através de negócios com os países do Golfo, estaria também a correr riscos com consequências imprevisíveis. Se esta guerra se alongasse por mais tempo, a região não teria condições ou estabilidade para providenciar os lucros desejados. O espaço aéreo e algumas zonas marítimas já se encontravam afetados pelas incursões diárias de caças Israelitas e disparos de mísseis balísticos Iranianos, com milhares de voos cancelados e companhias aéreas a suspender operações nas próximas semanas semanas. Dada a instabilidade na região, havia inúmeros negócios que já se encontravam pausados e investimentos congelados pela incerteza do rumo deste conflito.

Entretanto, o Irão poderia decidir encerrar o Estreito de Ormuz, por onde passa 30% de todo o petróleo consumido no mundo inteiro, por tempo indeterminado, o que levaria a um cenário de caos económico sem precedentes: aumento descontrolado nos preços de combustíveis, alimentos, custo de vida e possível agitação social entre as classes mais desfavorecidas. Os países do Golfo seriam os mais afetados pelo fechamento do Estreito e nações como o Egito e Jordânia poderão registar aumentos no custo de vida em 25%.

Durante os 12 dias de guerra, o Irão passou pelo seu maior teste de resiliência militar desde a guerra devastadora com o Iraque, que durou 8 anos, e demonstrou capacidades de defesa e de resposta bélica inesperadas contra Israel, considerado um adversário amplamente superior, e que contou com o apoio logístico norte-americano através do envio constante de armamento e do contributo no terreno para interceptar mísseis iranianos.

O regime de Teerão conseguiu ainda criar sérios problemas em território israelita com bombardeamentos diários em cidades como Telavive e posto à prova a Cúpula de Ferro com uma panóplia de drones e mísseis extremamente versáteis e eficazes em chegar até aos alvos, após cobrir distâncias até 2 mil quilómetros. Durante a guerra, estimava-se que o Irão ainda tinha à sua disposição mais de mil mísseis balísticos, que poderiam ser usados num período de vários meses. O governo Iraniano tinha também contado com a Rússia e a China para obter informação estratégico-militar para antecipar futuras operações israelitas contra alvos potenciais dentro do país.

Porém, Teerão tinha, e continua a ter, problemas fundamentais: exposta a pesadas sanções internacionais durante vários anos, a economia do regime Iraniano tem estado mergulhada numa crise profunda e uma guerra a esta escala seria uma garantia para adiar qualquer recuperação a curto prazo. Há também bastante contestação interna e externa, através dos membros da diáspora, entre os Iranianos contra o regime teocrático que se impôs no país desde a revolução de 1979, e que poderia aumentar caso a guerra se prolongasse.

Israel, por seu lado, tem estado a passar por uma aparente fase de ascendência bélica e de domínio regional inédito, após a vitória na guerra contra o Hezbollah no Líbano, a queda de Bashar al-Assad na Síria e o contínuo genocídio em Gaza, onde as suas forças militares continuam a matar mais de uma centena de civis inocentes diariamente, com reduzida resistência por parte do Hamas.

O apoio militar e financeiro providenciado pelos EUA e a impunidade concedida pela Comunidade Internacional, tinham garantido ao governo liderado por Netanyahu uma capacidade imparável de abrir novas frentes de guerra. Contudo, Israel não tem conseguido concretizar os seus objetivos em Gaza; há ainda reféns retidos na Faixa, onde o Hamas continua ativo e a confrontar regularmente soldados Israelitas com emboscadas letais, fenómeno que foi acentuado durante a guerra com o Irão.

O Hezbollah, embora derrotado na guerra no Líbano, ainda mantém a maioria dos seus combatentes intactos e preparados para se juntar ao Irão, caso fosse necessário. Os Houthi continuam a atacar esporadicamente Israel com o lançamento de mísseis e forçar civis Israelitas a fugir para abrigos, causando distúrbios na funcionalidade quotidiana, que regularmente incluem cancelamentos de voos e enceramento de serviços comerciais.

Desde que Netanyahu decidiu expandir as suas agressões regionais até ao Irão, o povo Israelita passou o seu tempo trancado em abrigos e sem qualquer noção de quando é que poderiam retomar as suas vidas de forma normal. Foi também registado um êxodo considerável de milhares de civis Israelitas a embarcar rumo ao Chipre ou a atravessar a fronteira com o Egito para fugir do país. A Cúpula de Ferro demonstrou incapacidades de interceptar mísseis de longo alcance e teve falhas técnicas, com os seus mísseis interceptores a explodir ou a colapsar em centros urbanos em Israel. Estes mísseis são também raros e com gastos exorbitantes, segundo estimativas otimistas, os custos podem rondar os 200 milhões de dólares por dia, o que poderia significar que Israel não teria mecanismos de defesa aérea suficientes para amparar os impactos infligidos pelos ataques Iranianos a médio prazo.

O porto de Haifa, por onde entram 30% de todas as importações nacionais, ficou seriamente danificado e em riscos de ser encerrado. O porto de Eilat (o único porto Israelita no Mar Vermelho) declarou bancarrota no ano passado. O aeroporto de Ben Gurion esteve também inutilizável devido ao encerramento do espaço aéreo. O próprio mito da invencibilidade de Israel foi despedaçado após a primeira semana de bombardeamentos Iranianos, naquela que foi a sua maior prova numa frente militar em tempos modernos. Continuar este conflito implicaria mais gastos financeiros e humanos, numa acumulação de guerras que se vão perpetuando sem garantias de sucesso.

Israel é um país microscópico comparado com as dimensões do Irão e a destruição de infraestruturas a que foi submetido pelos ataques Iranianos poderia alastrar-se mais rapidamente do que os danos que o Irão consegue suster.

Esta guerra enalteceu também o fato que o povo iraniano em geral não interpreta ataques contra o seu território como uma oportunidade de ouro para uma mudança de regime; mesmo aqueles que se opõem à teocracia liderada pelo Ayatollah Ali Khamenei, uniram-se para condenar as ações criminosas da ofensiva Israelita contra a sua nação. Apenas uma ultra-minoria, especialmente entre membros da diáspora Iraniana, viu o corrente conflito como uma possibilidade de destronar o regime de Khamenei e reactivar uma monarquia liderada por Reza Pahlavi, filho do antigo Xá da Pérsia, que se assume como o líder legítimo do Irão desde a morte do pai em 1980.

Esta guerra poderia representar, acima de tudo, um teste inédito para o projeto colonial e expansionista dos próprios EUA no Médio Oriente. Desde há mais de duas décadas que Washington tem imposto guerras e mudanças de regimes contra países cujos governos representavam obstáculos aos planos Israelitas. No espaço de mais de 20 anos, os EUA organizaram, participaram e financiaram guerras devastadoras contra o Afeganistão, Iraque, Somália, Líbia, Síria, Líbano, Iémen, e agora tinham no Irão o último adversário para servir os propósitos de Israel e, em particular, Benjamin Netanyahu, que internamente se encontra em apuros legais e internacionalmente é acusado de crimes de guerra e contra a Humanidade.

Trump juntou-se a Netanyahu na sua ofensiva contra o Irão nove dias mais tarde, com uma operação que visou a destruição de três bases nucleares Iranianas. Segundo o Presidente dos EUA, a operação foi um sucesso, resultando na obliteração dos planos nucleares de Teerão. O Irão e Israel continuaram a atacar-se mutuamente, causando mortos e feridos e um dia depois, Teerão lançou uma retaliação contra a maior base militar norte-americana no Médio Oriente, no Qatar. Quando se esperava uma escalada devastadora no conflito, Trump anunciou a proposta de um cessar-fogo, sugerido por Israel. O Irão concedeu e ao fim de uma longa noite de bombardeamentos brutais em Teerão e em território Israelita, a guerra chegou ao fim.

Trump assumiu-se como o Presidente pacificador e Netanyahu agradeceu a sua participação, alegando que o mundo estava agora mais seguro, especialmente com o Irão desfalcado do seu plano nuclear. Porém, segundo o governo Iraniano, os danos infligidos nas suas bases nucleares não foram suficientes para neutralizar o projeto de enriquecimento de urânio, informação que dias mais tarde foi confirmada pela CNN e NBC.

Entretanto, Benjamin Netanyahu declarou vitória na guerra contra o Irão, num discurso repleto de menções aos sucessos obtidos durante o conflito, incluindo os assassínios de altos oficiais e cientistas nucleares Iranianos, a destruição total de plataformas de lançamento de mísseis e a eliminação do plano nuclear a cargo de Teerão.

No entanto, esta conclusão é extremamente contestável, dada a quantidade considerável de fracassos que a operação militar Israelita produziu.

Decidimos elaborar uma lista que demonstra que Israel não só não venceu a guerra contra o Irão, mas como saiu como o grande perdedor deste conflito:

  1. Israel iniciou uma guerra sem provocação (calculando que poderia vencer sozinho e atingir os seus objetivos; não cumpriu).
  2. Israel declarou que a guerra duraria duas semanas (mas não conseguiu mantê-la por mais de 12 dias).
  3. Israel pediu apoio aos EUA (admitindo que não poderia derrotar o Irão sozinho).
  4. Israel sugeriu um cessar-fogo por diversas vezes durante a guerra que iniciou (admitindo, mais uma vez, que não conseguiria derrotar o Irão).
  5. Israel insistiu num cessar-fogo mesmo após a participação e apoio diretos dos EUA na guerra (admitindo ainda que não poderia prosseguir o conflito durante mais tempo).
  6. Israel não conseguiu forçar o Irão a render-se.
  7. Israel não atingiu nenhum dos seus principais objectivos (a maioria dos oficiais Iranianos assassinados foi substituída, ausência de danos irreversíveis nas principais instalações nucleares, ausência de retrocesso substancial nos planos futuros de desenvolvimento nuclear e ausência de mudança de regime).
  8. Israel admitiu que estava a ficar desfalcado de mísseis intercetores e que não poderia garantir a segurança dos seus próprios civis dentro do seu território num futuro próximo.
  9. Israel sofreu danos maciços nas infraestruturas em todo o país.
  10. Israel demonstrou que não é invencível ou impenetrável e que poderá não conseguir sustentar uma guerra mais longa e mais vasta, em diversas frentes militares, especialmente contra oponentes mais robustos do que os que enfrentou no Líbano e em Gaza.
  11. Israel, com os seus bombardeamentos e assassinatos de civis iranianos inocentes, uniu o povo Iraniano contra Israel, e não contra o regime de Teerão.
  12. Israel possibilitou ao Irão apresentar fortes argumentos a favor de um plano nuclear sólido e oficial, dado que Teerão não pode continuar vulnerável e sem poder de dissuasão.
  13. Israel, dada a sua volatilidade e imprevisibilidade violentas na região, expôs a necessidade de investigações estrangeiras sobre o seu próprio programa nuclear ilícito.
  14. Israel limitou as suas opções para lançar uma segunda guerra contra o Irão e não será capaz de persuadir os EUA a juntarem-se a quaisquer ofensivas militares na região num futuro próximo.
  15. Israel provocou uma resposta de outros atores regionais (tais como o Paquistão e a Coreia do Norte) que se ofereceram a reforçar abertamente apoio defensivo e logístico futuro ao Irão, caso este seja atacado de novo.
  16. Israel reduziu a sua capacidade de combater em Gaza enquanto estava em guerra com o Irão, sofrendo mais baixas militares e tornando-se mais vulnerável aos ataques do Hamas na Faixa.
  17. Israel enalteceu a importância estratégica e económica global do Irão, quando este ameaçou encerrar o Estreito de Ormuz (do qual possui controlo) por receios de falta de segurança decorrente de potenciais ataques Israelitas e norte-americanos na área.
  18. Israel destacou-se como uma ameaça aos EUA e aos seus esforços diplomáticos globais e planos de normalização no Médio Oriente.
  19. Israel prejudicou a sua própria imagem no Médio Oriente, isolando-se ainda mais como o principal gerador de caos e violência e, por conseguinte, o principal perturbador da paz, estabilidade e prosperidade na região.
  20. Israel, com esta guerra, criou um forte argumento para uma mudança de regime; Trump irá provavelmente utilizar o timing da desastrosa campanha genocida de Israel em Gaza e de uma guerra falhada contra o Irão para impor reformas de modo a tornar Israel menos volátil e insustentável.

É importante realçar que o futuro da economia mundial dependerá fortemente do Médio Oriente (incluindo o Irão). Para obter prosperidade, a região necessita de paz e estabilidade – que só é possível se guerras e conflitos forem minimizados/neutralizados. Isto é exatamente o oposto do que Israel (especialmente sob o executivo de Netanyahu) tem vindo a fazer e do que deseja perpetuar.

O futuro do Médio Oriente não incluirá o actual regime israelita (um Estado insustentável, dependente da ajuda externa e da protecção militar, que perturba a estabilidade regional com as suas guerras intermináveis ​​e campanhas genocidas). A mudança de regime virá para Israel. Ou Israel será irreversivelmente desmantelado.

João Sousa, a partir do Líbano para a e-Global

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