Beirute foi palco do funeral dos líderes do Hezbollah Hassan Nasrallah e Hicham Safieddine, mortos por Israel no ano passado. A cerimónia realizou-se no Estádio Desportivo Camille Chamoun, que foi inundado por mais de 80 mil participantes no espaço de poucas horas, exibindo fotos de familiares mortos por Israel, posters de Nasrallah e Safieddine, e bandeiras do Hezbollah, do Líbano, Irão, Iraque, Iémen e de outras nações solidárias com o movimento xiita.
Fora do estádio, várias centenas de milhares de participantes encheram as ruas e artérias principais do distrito sul de Beirute para seguir de perto a cerimónia. Segundo alguns meios de comunicação social, o número de participantes presentes no funeral alcançou 1 milhão e 400 mil pessoas, naquela que foi uma das mais importantes cerimónias fúnebres de sempre no mundo Árabe. O Hezbollah e o Exército Libanês tomaram medidas de segurança para o evento, colocando tropas e veículos militares em pontos estratégicos em ruas e rotundas no distrito sul da capital Libanesa para controlar as multidões e prevenir qualquer desacato ou até ameaças de ataques terroristas.
Na noite de sábado, milhares de famílias Libanesas (predominantemente xiitas) viajaram até Beirute vindas do sul do Líbano e do Vale de Bekaa – algumas a pé, em modo de peregrinação – apesar do mau tempo e da neve nalgumas regiões. Dadas as multidões estimadas para o evento, muitos apoiantes do Hezbollah acamparam nas imediações do estádio. O funeral atraiu também centenas de milhares de cidadãos de outros países, nomeadamente do Irão, Iraque, Iémen, Tunísia, Turquia e Marrocos, inclusive representantes oficiais de algumas destas nações. A significância e as dimensões mediáticas deste evento atraíram mais de 2 mil jornalistas vindos de todo o mundo (a e-Global foi o único órgão de comunicação social Português presente). Diversas figuras públicas, políticas e religiosas Libanesas e estrangeiras foram até Beirute para prestar homenagem a Nasrallah e Safieddine, inclusive líderes Cristãos e Druzos. O evento foi também marcado pelas presenças de personalidades como o neto de Nelson Mandela, Zwelivelile Mthengisi Mandela, o influencer Brasileiro Thiago Ávila e o comediante e activista pro-Palestina Irlandês Tadhg Hickey (que confessou que se apaixonou pela hospitalidade e humanidade dos Libaneses durante a sua estadia na terra dos cedros). A cerimónia durou algumas horas e incluiu discursos de figuras políticas e a exibição de vídeos de arquivo da história do Hezbollah e dos respectivos Secretário-Gerais Nasrallah e Safieddine nos ecrãs gigantes dentro e fora do estádio. Multidões inteiras, exibindo fotos de familiares mortos por Israel durante a guerra e exibindo bandeiras do Hezbollah choraram ao som de rezas xiitas e das palavras de Nasrallah que ecoaram por todo o distrito sul de Beirute durante o desfile dos caixões dos dois líderes transportados por uma camioneta que lentamente deu uma volta dentro estádio. Este momento solene foi abruptamente interrompido pela incursão de quatro caças militares Israelitas que fizeram um voo raso sobre as multidões. As centenas de milhares de participantes não se deixaram intimidar e rapidamente responderam à manobra provocadora com cânticos como “Morte a Israel” e “Ao teu Serviço, Nasrallah”. Os caças voltaram a sobrevoar Beirute cerca de uma hora depois para deixar a mensagem que Israel pode e continuará a violar o espaço aéreo Libanês sempre que quiser, atitude confirmada pelas ameaças do Ministro da Defesa Israelita Israel Katz que declarou que “quem quer que ameace destruir Israel e atacar Israel – este será o seu fim. Vocês especializar-se-ão em funerais – e nós em vitórias.” Ainda durante o dia de Domingo, as forças militares Israelitas efetuaram mais de uma dezena de ataques aéreos em zonas do sul e este do Líbano.
A e-Global entrevistou várias pessoas presentes no funeral que testemunharam os voos Israelitas e que confessaram que estas provocações não têm qualquer efeito no espírito do povo, pois este já não têm nada a perder após uma guerra tão devastadora. Alguns participantes acrescentaram de forma entusiasmada que as ameaças Israelitas servem apenas para confirmar e reforçar o espírito inquebrável da resistência xiita no Líbano.
Antes da saída dos dos dois caixões serem transportados para fora do estádio em direção ao santuário recentemente construído e destinado ao enterro de Nasrallah, o atual Secretário-Geral do partido xiita, Naim Qassem, fez um discurso marcado pela promessa que o Hezbollah continuará com a sua missão de resistência contra a ocupação Israelita e o controlo dos EUA dentro do Líbano.
A camioneta desfilou ao longo das ruas do sul de Beirute num percurso que levou algumas horas, acompanhados por milhares de cidadãos ao longo da última viagem dos dois líderes. A cerimónia terminou no santuário, perto da estrada do Aeroporto de Beirute, onde algumas pessoas permaneceram para se despedir dos defuntos. Duas filas de combatentes do Hezbollah ladearam a parte final do desfile antes de retirar o caixão de Nasrallah e transportá-lo para dentro do mausoléu (o caixão de Safieddine (primo de Nasrallah e considerado como o número dois do partido xiita) seria levado para no seu município-natal Deir Qanoun an-Naher nos dia seguinte.
Apesar do número impressionante de participantes no funeral de Domingo, que foi também comemorado por apoiantes do movimento xiita no estrangeiro em países como o Irão e Paquistão, muitos Libaneses continuam a repudiar a existência armada do Hezbollah. Segundo uma sondagem do Barómetro Árabe de 2024, 55% do povo Libanês não confia no Hezbollah e deseja a sua remoção política e militar. Muitos continuam a condenar o envolvimento do grupo xiita no regime sanguinário de Bashar Al Assad na Síria e de crimes e assassínios políticos cometidos dentro do Líbano, dos quais Nasrallah é acusado.
A morte de Sayyed Hassan Nasrallah (cuja liderança durou mais de três décadas) e o recente enfraquecimento militar do Hezbollah representam não só o fim de uma era e a perda de um dos homens mais influentes e controversos na região mas também o início de um capítulo repleto de pontos de interrogação para a comunidade xiita (cuja maioria ainda considera Nasrallah como uma figura paterna) e a respetiva existência e integração no plano sócio-político Libanês.
João Sousa, a partir de Beirute para a e-Global