A Associação Barbara Nassar organizou no sábado passado um evento para sensibilização para o cancro da mama no centro de Beirute, onde se reuniram centenas de pessoas, incluindo pacientes e sobreviventes de cancro, e especialistas oncológicos. O evento, intitulado “Marcha da Promessa do Mindinho” durou a tarde inteira e foi marcado por espetáculos de dança, música ao vivo, sessões didáticas e consultas e exames de rastreio de cancro da mama, culminando numa marcha pela rua de Mar Mikhael até ao edifício estatal da electricidade.
Este evento ocorreu numa altura em que o Líbano registou o maior aumento de casos e mortes por cancro nos últimos 33 anos, com uma taxa de até 80%, de acordo com um estudo recente publicado pela revista médica semanal britânica Lancet, que avaliou casos e taxas de mortalidade para 47 tipos de cancro em 204 países entre 1990 (ano que marcou o fim da guerra civil Libanesa) e 2023 (quando a guerra entre o Hezbollah e Israel teve início).
De acordo com este estudo, o cancro da mama foi o mais diagnosticado no mundo em 2023. O cancro da traqueia, dos brônquios e do pulmão foram a principal causa de morte, enquanto 42% das mortes por cancro em todo o mundo estavam relacionadas com fatores de estilo de vida, como o consumo de tabaco, má alimentação, o elevado consumo de açúcar e falta de exercício físico. O tabaco, por si só, contribuiu para mais de um quinto (21%) das mortes por cancro no mundo, de acordo com os investigadores. O estudo revelou ainda que o Líbano teve 65,2 mortes por cancro por cada 100 mil habitantes em 1990, e que em 2023 este número chegou aos 80%.
Entretanto, o Ministro da Saúde Libanês, Rakan Nasreddine, acusou o relatório da Lancet de ser exagerado e impreciso, avançando que “os dados do estudo baseiam-se em pressupostos e modelos pré-determinados, e não em números reais disponíveis, uma vez que, até à data, o Líbano não possui dados científicos precisos sobre as mortes causadas pelo cancro”. Contudo, Nasreddine deixou a ressalva de que o estudo em questão representa “um alerta para todos os envolvidos na política de saúde no Líbano. Além do tabagismo e da completa falta de medidas de controlo, há a ter ainda em conta os elevados níveis de poluição no Líbano e os estilos de vida pouco saudáveis.”
O número crescente de incidências de cancro no Líbano deve-se também à poluição do ar e água; a maioria das residências e estabelecimentos comerciais Libaneses necessitam do uso de geradores movidos a combustível para compensar a falta de electricidade estatal. Estes geradores emitem poluentes em doses consideráveis que contaminam o ar e prejudicam seriamente a saúde das pessoas que vivem e trabalham em centros urbanos, um fenómeno exposto num estudo publicado em 2024 por investigadores da Universidade Americana de Beirute que concluiu que o nível de poluentes cancerígenos no ar estava associado à dependência de geradores e que duplicou desde 2017.
A nível global, de acordo com o estudo da Lancet, prevê-se que as mortes por cancro aumentem até 75% e atinjam 18,6 milhões de pessoas nos próximos 20 anos, devido ao envelhecimento populacional e estilos de vida pouco saudáveis.
João Sousa, a partir de Beirute para a e-Global