Os moradores de certos bairros em Trípoli, a maior cidade no norte do Líbano, têm enfrentado sérios problemas causados pela derrocada de edifícios antigos, nomeadamente na zona de Qobbeih, onde no fim de semana passado morreram duas pessoas após o colapso de um prédio de cinco andares.
Foram ainda registados mais cinco incidentes com derrocadas totais e parciais, levando à emissão de alertas de evacuação para mais de 100 edifícios por parte das autoridades locais. Na passada quinta-feira, mais dois edifícios foram evacuados e o regresso desesperado de uma família à sua residência afetada levou ao bloqueio por parte das forças de segurança de todos os acessos às áreas residenciais em risco de ruir, como o objetivo de proteger a população local.
Também em Qalamoun, o comité municipal de gestão de crises inspecionou outro edifício, revelando fissuras de grandes dimensões nas vigas de suporte, afundamento e deformação da laje do pavimento, infiltrações de esgotos que tem provocado a corrosão das armaduras metálicas, fissuras longitudinais nas paredes e derrocadas parciais do telhado. O comité recomendou a intervenção imediata para reforçar a estrutura.
Apesar dos avisos quase diários, muitas famílias insistem em permanecer nas respetivas residências e arriscar a vida por não terem habitação alternativa ou condições financeiras para reparar e reforçar as suas casas.
Este tipo de ocorrência é comum durante o inverno, cujo mau tempo e chuvas normalmente aceleram o processo de desgaste dos edifícios; contudo os habitantes afetados têm acusado as autoridades de negligência e resposta lenta para dar conta desta crise, que tem deixado inúmeras famílias desalojadas.
Trípoli, em particular, é considerada pela ONU como a cidade mais pobre do Médio Oriente, e devido à falta de financiamento regular, diversas infraestruturas têm sido gravemente deterioradas. Nos últimos anos, têm sido registados incidentes envolvendo derrocadas de edifícios e resultando em mortes e ferimentos graves, como em Junho de 2022, quando um prédio de quatro andares no bairro de Bab al-Tabbaneh colapsou, matando uma criança de 4 anos.
Em início de 2023, esta crise adquiriu novos contornos após os terramotos na Turquia e Síria, que causaram danos nalgumas casas e geraram pânico entre milhares de famílias que buscaram refúgio em espaços abertos como a Feira Rachid Karami.
Segundo o último censo municipal de 2024, há pelo menos 105 edifícios habitados em risco de derrovada iminente; contudo, de acordo com a Liga Libanesa de Construção, o número real de edifícios na iminência de colapsar ronda os 4 mil.
Na quinta-feira, a Câmara Municipal de Tripoli acionou um plano de emergência, que inclui a criação de uma central de operações 24 horas para receber denúncias sobre edifícios em risco de ruir, atualizar a base de dados com os edifícios identificados e classificar as estruturas de acordo com o nível de perigo. Os terrenos identificados em diferentes municípios serão também utilizados para a instalação de casas pré-fabricadas fornecidas pelo Comité Superior de Assistência Social, de forma a garantir habitação temporária em caso de evacuações rápidas.
João Sousa, correspondente para a e-Global a partir do Líbano