Há duas semanas, um activista decidiu abrir uma página na Internet dedicada aos estrondos sónicos gerados pelos caças israelitas que têm aterrorizado a população libanesa durante a guerra em curso desde há quase um ano.
A página em questão, intitulada ‘Jidar Sot’ (termo que em árabe literalmente significa ‘estrondo sónico’, também conhecido como ‘sonic boom’ em inglês), visa não só proporcionar uma plataforma digital colectiva para que qualquer pessoa possa publicar reacções e avaliações para cada estrondo sónico sentido no Líbano, mas também permitir um registo quantitativo detalhado do número destas ocorrências.
Jidar Sot, que tem assistido a uma adesão vistosa, com centenas de avaliações online (muitas delas em tom humorista), resume-se a uma página em formato minimalista e de fácil acesso. De acordo com a equipa por detrás da iniciativa, os estrondos sónicos têm sido usados por Israel para aterrorizar a população civil libanesa cujos efeitos não devem ser normalizados.
O facto de algumas avaliações incluírem reacções com humor negro (como usuários queixarem-se que os estrondos sentidos têm sido fracos ultimamente) revela a famosa resiliência libanesa como forma de lidar com traumas colectivos gerados pela guerra actual e o sofrimento criado por diversos conflitos, acumulado ao longo de décadas.
Israel tem sistematicamente usado estrondos sónicos (sons semelhantes a bombardeamentos criados através da quebra da barreira de som pelos seus caças de guerra) como táctica de terror psicológico contra o povo libanês, nomeadamente na região sul do país e relembrar que as forças militares israelitas podem sobrevoar zonas de civis com total impunidade.
Embora um estrondo sónico não seja suficientemente potente para causar a morte directa em humanos, a natureza abrupta e devastadora do seu ruído e ondas de pressão podem quebrar janelas e criar acidentes de viação (devido aos sustos que pode gerar nos condutores nas estradas).
E, a longo prazo, os estrondos têm causado desgaste psicológico na população libanesa, que se sente totalmente incapaz de impedir estas ocorrências.
Jidar Sot oferece assim uma alternativa para que pelo menos os libaneses possam ‘desabafar’ sobre estas experiências traumatizantes e sentirem-se menos isolados na sua existência diária numa rotina contínua de violência imprevisível.
João Sousa, e-Global