Por breves momentos, os Libaneses respiraram de alívio; “certamente esta guerra será apenas entre Israel e o Hamas.” Ou pelo menos, foi essa a primeira esperança colectiva no dia 7 de Outubro, há um ano atrás.
Como poderia o Líbano fazer parte de mais um evento catastrófico, após entrar na sua crise socioeconómica mais devastadora, falta de investimentos estrangeiros, queda vertiginosa do valor da sua moeda, escassez de acesso a dólares, limitações no abastecimento de água e electricidade, recuperação infraestrutural de grande parte da sua capital após a maior explosão não-nuclear na história da humanidade e a ausência de um Presidente da República por mais de 2 anos? Entrar numa guerra aberta com Israel constituiria uma jogada demasiado arriscada para um povo sem nada a ganhar.
E no entanto, um dia após o fatídico ataque do Hamas dentro de Israel, o Hezbollah decidiu juntar-se ao conflito, arrastando o Líbano para uma guerra para a qual não estava preparado; no dia 8 de Outubro de 2023, o grupo xiita disparou mísseis guiados em direcção a Shebaa Farms, território Libanês ocupado ilegalmente por Israel, alegando solidariedade para com o Hamas e o povo de Gaza. Desde então, as forças militares Israelitas e o Hezbollah permaneceram em trocas de agressões bélicas, quase exclusivamente focadas no sul do Líbano.
Inicialmente, o Hezbollah tentou recorrer à táctica ‘tit for tat’ (em Inglês, ‘olho por olho’), consistindo em responder aos ataques Israelitas com a mesma intensidade. Porém, esta abordagem não teve longa duração; ao contrário dos ataques do grupo xiita, que visavam exclusivamente alvos militares, as respostas de Israel eram invariavelmente desproporcionais e em diversas ocasiões destruindo infraestruturas civis. Apesar da presença constante da ONU para tentar conter o conflito e minimizar a sua expansão, eventualmente tanto o Hezbollah como Israel tiveram de expandir as suas ‘linhas vermelhas’ ao longo da fronteira, à medida que havia necessidade de encontrar novos alvos militares. Esta expansão territorial de hostilidades criou não só destruição de casas e estabelecimentos comerciais, como a deslocação forçada de milhares de civis (mais de 100 mil do lado do Líbano e cerca de 60 mil Israelitas) das suas residências para outras áreas menos inseguras nos respectivos países.
Apesar da ausência de soluções diplomáticas entre o Hezbollah (que recusou parar às hostilidades enquanto não houvesse um cessar-fogo em Gaza) e Israel (que ameaçou continuar a escalar e expandir o conflito se o Hezbollah não parasse os seus ataques contra o norte Israelita) o conflito permaneceu relativamente contido nas mesmas zonas (especialmente no sul do Líbano e no Vale do Bekaa). Porém, tudo mudou em meados de Setembro, quando Israel detonou milhares de dispositivos pager pertencentes a membros do Hezbollah, causando inúmeros mortos e feridos – incluindo civis – expondo ainda as identidades de vários altos oficiais do grupo xiita. Dias depois, Israel conseguiu ainda detectar a localização de uma reunião de elevado perfil do Hezbollah num bairro residencial no sul de Beirute e através de um bombardeamento aéreo, eliminou vários comandantes do grupo xiita.
Numa tentativa de dissuadir as forças Israelitas de avançar com as suas ofensivas em território Libanês, o Hezbollah expandiu o raio de acção contra Israel ao disparar rockets perto de Haifa e Nazaré. A resposta de Israel levou apenas um dia e a 23 de Setembro, lançou a operação ‘Flechas do Norte’ com centenas de bombardeamentos em vários pontos do Líbano, fazendo um total de 600 mortos, a maioria civis. Esta escalada de violência militar, aproveitando o enfraquecimento organizacional do Hezbollah, que entretanto já estava desfalcado na sua liderança, continuou a aumentar ao longo dessa semana, onde mais comandantes do grupo xiita foram assassinados, incluindo o Secretário-Geral, Sayyed Hassan Nasrallah. No final da semana, o sul de Beirute estava desfigurado e o número de mortos tinha ultrapassado os dois mil. A destruição causada pelas forças Israelitas causou a fuga de mais de um milhão de civis Libaneses das suas residências, e centenas de milhares de pessoas a tentar evacuar para a Síria e Iraque. Israel não tem cessado os bombardeamentos e, ao contrário da guerra de 2006, tem atingido zonas como Cola ou Tripoli. Para além disso, as forças Israelitas têm bombardeado escolas e hospitais, alegando a presença de membros do Hezbollah nestas infraestruturas.
Apesar da pressão crescente por parte de países como os EUA e França (que recentemente avisou que deixará de vender armas a Israel) com o intuito de forçar um cessar-fogo em Gaza e também no Líbano, Israel parece imparável na sua campanha de desmantelar o Hamas e o Hezbollah, mesmo que isto implique arriscar uma guerra total na região e sofrer baixas militares e civis.
Por seu lado, o Líbano (ao contrário de Israel) não possui defesas anti-aéreas, não tem uma cúpula de ferro, não está munido de sirenes para avisar os seus cidadãos de ataques iminentes ou de abrigos subterrâneos para estes se recolherem em segurança. O país está totalmente à mercê das ofensivas militares do exército Israelita, que na última semana tem tentado efectuar incursões por terra para invadir o Líbano e ocupar pontos estratégicos em território Libanês.
Os níveis de devastação excedem amplamente aqueles testemunhados na guerra de 2006, e ao contrário do que aconteceu no final desse conflito, desta vez não há garantias que o Líbano possa ter investimentos estrangeiros para se regenerar rapidamente.
E mesmo que o Hezbollah recupere e consiga impedir Israel de efectuar uma invasão terrestre, os danos físicos no Líbano são demasiado devastadores para o povo Libanês conseguir contemplar uma recuperação infraestrutural nos próximos meses ou até anos.
Muito Palestinianos tinham passado os últimos meses a avisar os residentes de Beirute que um dia a capital Libanesa poderia tornar-se numa nova Gaza. Pouco levaram o aviso a sério. Contudo, um ano mais tarde, uma Beirute desfigurada está mais perto de Gaza do que voltar a ser a ‘Paris do Médio Oriente’.
João Sousa, e-Global