Mundo entra na era da “falência global da água”, alerta relatório da ONU

O mundo deixou de viver uma simples crise hídrica e entrou numa fase de “falência global da água”, segundo um relatório de referência divulgado esta terça-feira por investigadores das Nações Unidas. O estudo conclui que, em muitas regiões, a escassez de água deixou de ser temporária e passou a ser estrutural, com sistemas hídricos incapazes de regressar aos níveis históricos, alterando de forma profunda o equilíbrio ambiental, social e económico global.

De acordo com Kaveh Madani, director do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, o cenário não representa um colapso total, mas sim a existência de múltiplos sistemas falidos ou à beira da falência, interligados por cadeias de comércio, migração e dependências geopolíticas. Os impactos recaem de forma desproporcional sobre pequenos agricultores, povos indígenas, populações urbanas de baixos rendimentos, mulheres e jovens, enquanto os benefícios do uso excessivo da água continuam concentrados em actores mais poderosos.

O relatório define a falência hídrica como uma combinação de insolvência — quando a extracção e a poluição ultrapassam os limites de reposição natural — e irreversibilidade, associada à degradação de ecossistemas essenciais como lagos e zonas húmidas. Dados apresentados indicam que mais de metade dos grandes lagos do mundo diminuíram desde os anos 1990 e cerca de 35% das zonas húmidas naturais desapareceram desde 1970. Actualmente, quase três quartos da população mundial vivem em países com insegurança hídrica, e cerca de quatro mil milhões de pessoas enfrentam escassez severa de água pelo menos um mês por ano.

Apesar da gravidade do cenário, os autores defendem que a falência não representa o fim, mas sim o início de um plano de recuperação estruturado. Entre as medidas propostas estão a protecção rigorosa dos recursos hídricos remanescentes, a revisão de modelos de consumo insustentáveis e a adopção de políticas públicas alinhadas com a realidade hidrológica actual. Segundo Madani, continuar a tratar a escassez de água como uma crise passageira apenas agravará os danos ambientais e aumentará os riscos de conflitos sociais e económicos a nível global.

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