Num comunicado dirigido à opinião pública nacional e internacional, a FRAPE (Frente Republicana para a Alternância Patriótica e a Equidade) denuncia o agravamento da situação no Chade e destaca um reforço da sua resistência armada face ao regime do presidente Mahamat Déby Itno. No documento, datado de 9 de fevereiro de 2026, o movimento acusa as forças governamentais de cometerem exações contra civis em várias localidades, reafirma a sua implantação no sul do país, nomeadamente na região do Moyen-Chari, e apela à união nacional e à desobediência contra o poder em funções.
Criada há cerca de nove meses, a FRAPE afirma-se como um novo ator armado no conflito chadiano, assumindo abertamente uma estratégia de confronto com o regime do presidente Mahamat Déby. O movimento apresenta-se como uma organização insurgente estruturada, dotada de ambição nacional e com uma clara vocação para a articulação federadora entre diferentes grupos armados de oposição.

A coordenação da FRAPE é assegurada por Aboubakar Sidick, figura com um percurso anterior de militância política no Chade. Sidick integrou inicialmente o RNDT (sigla francesa de União Nacional dos Democratas Chadianos), tendo posteriormente transitado para o partido Patriotas, onde exerceu funções de secretário-geral. Segundo declarou em entrevista à e-Global, a rutura definitiva com a via política ocorreu após o assassinato do principal opositor a Mahamat Déby, Yaya Dillo, em fevereiro de 2024, episódio marcante que determinou o ponto de viragem para a opção pela luta armada.
No plano organizacional, o coordenador da FRAPE rejeita a existência de uma base territorial única de origem do movimento, sublinhando que a sua génese se situa na zona conhecida como Três Fronteiras, entre o Chade, os Camarões e a República Centro-Africana. Esta implantação transfronteiriça é apresentada como um fator estratégico, tanto ao nível da mobilidade como da capacidade de articulação regional.
Por razões estratégicas, a FRAPE mantém uma cooperação militar ativa com o MPRD, relação que Aboubakar Sidick reconhece como determinante para a própria constituição do movimento. A articulação entre ambos traduz-se em apoio mútuo em situações de confronto armado. O coordenador refere, a este propósito, o ataque de 17 de janeiro, na localidade de Korbol, explicando que a operação teve como alvo principal o MPRD por parte da ANT (Forças Armadas Chadianas), tendo a FRAPE intervindo em reforço ao MPRD, ação que terá resultado na retirada das forças governamentais.
Segundo Sidick, a FRAPE beneficia atualmente de um contexto que descreve como um “despertar nacional”, caracterizado por um alegado aumento do apoio popular e pela integração na organização de vários militares desertores da ANT, que recusariam continuar a apoiar o regime em funções.
Paralelamente, o movimento procura ampliar a sua capacidade operacional através do estabelecimento de contatos com outros grupos armados. O coordenador confirma a existência de contatos preliminares com a FACT, com o objetivo de exercer pressão sobre o regime a partir da frente norte.
A estratégia anunciada passa igualmente pela criação de uma federação de grupos armados de oposição, assente na coordenação de operações e na assistência militar mútua. De acordo com Sidick, os primeiros passos já foram dados através da cooperação com o MPRD (Movimento pela Paz, Reconciliação e o Desenvolvimento), estando igualmente em preparação alianças com combatentes chadianos que regressam ao país após participarem em conflitos em Estados vizinhos.
No plano militar, Sidick afirma que a FRAPE não pretende lançar ofensivas diretas contra o exército nacional enquanto instituição. A linha estratégica do movimento distingue entre o que denomina “exército nacional” e um “exército clânico”, identificado como o núcleo duro do poder presidencial. Segundo o coordenador, o alvo prioritário da FRAPE é o designado “exército clânico” composto maioritariamente pela guarda pretoriana presidencial, combatentes sudaneses, conhecidos como Toroboros, bem como por mercenários oriundos da Líbia, Mali e Níger ao serviço do atual poder.
“O exército nacional é composto, maioritariamente, por militares forçados a sustentar o regime”, explicou Aboubakar Sidick, acrescentando que a FRAPE apela a esses militares para se associarem ao derrube do regime de Mahamat Déby. Para o movimento, a luta armada é apresentada como o último recurso face ao que descreve como um sistema assente no nepotismo, no clã e na apropriação sistemática dos recursos públicos.
RN