O assassinato do ativista Vigário Luís Balanta e o posicionamento do Governo de transição, que se demarcou do caso, poderão ter aberto uma nova fratura no seio das autoridades. Em causa está a ocorrência de atos considerados isolados, raptos, espancamentos, ameaças e homicídios, que, segundo informações oficiais, têm potencial para desestabilizar o atual quadro político.
Fontes governamentais indicam que tanto o Primeiro-ministro, Ilídio Vieira Té, como o Presidente de transição, Horta Inta-a, procuraram distanciar-se do sucedido, tendo igualmente manifestado à família da vítima, Vigário Luís Balanta, a sua indignação. Como sinal de transparência e tentativa de afastar suspeitas, Horta Inta-a reuniu, no próprio dia em que foi conhecida a morte de Balanta, os chefes das forças de defesa e segurança, expressando repúdio pelo crime e exigindo reforço da vigilância. De acordo com fontes citadas pelo e-Global, o chefe de Estado terá também transmitido à família da vítima uma mensagem de solidariedade e pesar.
O primeiro-ministro foi mais incisivo. Para além da posição oficial expressa no comunicado do Conselho de Ministros, que condena o crime com veemência, Ilídio Vieira Té convocou as estruturas incumbidas da investigação, nomeadamente o Ministério do Interior e a Polícia Judiciária, exigindo maior celeridade na condução do inquérito.
Paralelamente às declarações públicas, as investigações concentram-se na identificação da estrutura que poderá estar por detrás do homicídio. Antes de morrer, Vigário Luís Balanta terá referido, num áudio divulgado recentemente, que o rapto de que foi vítima, juntamente com outros colegas, teria sido liderado por Bodjan Candé, filho do ex-ministro do Interior, Botche Candé.
Na mesma gravação, Balanta assegura que o Presidente de transição, Horta Inta-a, não tinha conhecimento dos raptos, tal como o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Tomás Djassi.
Neste contexto, cresce a especulação em torno de uma alegada força paralela, supostamente criada na Presidência da República durante o mandato de Umaro Sissoco Embaló. Esta estrutura, informalmente designada como “Craveira”, denominação não confirmada oficialmente, e alegadamente liderada por Bodjan Candé, é apontada como um fator de instabilidade adicional. Segundo diversas fontes, o grupo não responde a qualquer cadeia de comando institucional, atuando sob influência direta do seu mentor, o ex-Presidente Embaló.
É precisamente neste ponto que se poderá situar um dos principais focos de tensão na atual transição. Apesar de afastado do poder, Sissoco Embaló manterá influência indireta em determinadas decisões, sobretudo ao nível das nomeações, embora enfrente crescentes dificuldades em impor a sua vontade.
No plano político, começa igualmente a emergir uma contestação discreta por parte de alguns setores do regime, que reclamam maior inclusão nos processos de decisão. Nos bastidores, admite-se mesmo a possibilidade de substituição do Primeiro-ministro.
Tanto o Primeiro-ministro como o Presidente de transição têm vindo a qualificar determinados episódios como excessivos. Um dos casos mais significativos ocorreu a 2 de Abril, durante as cerimónias fúnebres de Vigário Luís Balanta.
Após o funeral, um grupo de manifestantes organizou uma marcha em direção ao Palácio da Justiça, exigindo a abertura de processos contra os suspeitos, num momento em que o nome de Bodjan Candé já circulava publicamente. O protesto foi intercetado por forças de segurança a cerca de um quilómetro do destino, tendo os participantes sido dispersados com recurso a gás lacrimogéneo.
Horas depois, o Governo ordenou a retirada das forças de segurança das ruas, alegando que os manifestantes não representavam ameaça à ordem pública. A decisão terá partido da Primatura.
Antes disso, registou-se ainda uma intervenção na Casa dos Direitos, onde o delegado da União Europeia foi forçado a abandonar o local. No dia seguinte, as autoridades de transição apresentaram pedidos de desculpa formais pelo incidente.
Do lado de Umaro Sissoco Embaló, o silêncio mantém-se absoluto. Desde os acontecimentos de 25 de novembro, o antigo Presidente, descrito por alguns como “alegadamente deposto”, não voltou a pronunciar-se publicamente.
Circulam, entretanto, informações sobre mais uma deslocação de Embaló à Europa, alegadamente acompanhado pelo ex-Presidente senegalês Macky Sall, no quadro de diligências para apoiar a candidatura deste último ao cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas.
One Comment
A situação que se vivi na Guine-bissau é muito preocupante e vergonhosa. Sei que neste regime instalado no país não são todos que estão lá dentro que concordam plenamente com esses assassinatos, raptos, atrocidades e crime organizado mas, a responsabilidade insere em duas figuras: HORTA IN-TAN E ILIDIO VIEIRA TÉ.
É muito cedo ainda, vale apena lembrado como um homem integro de que um criminoso.
Os meus cumprimentos de [ ermondade].