Supercentenários no Brasil revelam pistas genéticas e imunológicas que podem redefinir o envelhecimento humano
O Brasil está a emergir como um dos cenários mais relevantes — e ainda pouco explorados — para o estudo da longevidade humana extrema. Cientistas identificaram no país um número significativo de pessoas com mais de 110 anos, os chamados supercentenários, cujas características genéticas e imunológicas estão a desafiar a visão tradicional do envelhecimento como um processo inevitável de declínio.
Um artigo de opinião publicado a 6 de Janeiro na revista Genomic Psychiatry, assinado pela investigadora Mayana Zatz e colegas do Centro de Investigação do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo, defende que a diversidade genética brasileira oferece oportunidades científicas únicas para compreender os mecanismos da longevidade excecional.
Segundo os autores, muitos grandes estudos genómicos internacionais baseiam-se em populações geneticamente homogéneas, deixando de fora variantes raras presentes em populações miscigenadas. No caso do Brasil, essa diversidade resulta de séculos de mistura entre povos indígenas, africanos, europeus e asiáticos, originando milhões de variantes genéticas ainda ausentes em bases de dados globais.
Estudos anteriores com idosos brasileiros identificaram milhões de variantes genéticas inéditas, incluindo alterações associadas ao sistema imunitário e à manutenção celular. Entre os supercentenários analisados, muitos mantêm a lucidez mental, autonomia funcional e uma capacidade surpreendente de resistir a infeções graves, mesmo tendo vivido grande parte da vida com acesso limitado a cuidados médicos modernos.
O acompanhamento inclui mais de 160 centenários, entre os quais 20 supercentenários validados. Entre eles esteve a Irmã Inah, considerada a pessoa mais velha do mundo até à sua morte, em Abril de 2025, aos 116 anos. O grupo inclui também alguns dos homens mais velhos já registados, um facto particularmente relevante, dado que a longevidade extrema é menos comum no sexo masculino.
Os investigadores destacam ainda famílias com vários membros a ultrapassar os 100 anos, reforçando a hipótese de uma herança genética associada à resiliência biológica. Estudos indicam que irmãos de centenários têm uma probabilidade significativamente maior de também atingirem idades muito avançadas.
Do ponto de vista biológico, os supercentenários apresentam sistemas imunitários invulgarmente eficazes, com processos de reciclagem celular e controlo de proteínas comparáveis aos de pessoas muito mais jovens. Durante a pandemia de COVID-19, alguns participantes com mais de 110 anos sobreviveram à infeção antes da existência de vacinas, desenvolvendo respostas imunológicas robustas ao vírus.
Para os autores, estes dados sugerem que o envelhecimento extremo pode ser entendido não como falência do organismo, mas como uma forma avançada de adaptação e resiliência. A equipa defende a expansão de estudos genómicos e imunológicos em populações diversas como a brasileira, sublinhando que estas descobertas poderão contribuir para estratégias globais de medicina de precisão e envelhecimento saudável.