O consumo elevado de alimentos ultraprocessados pode estar associado a uma maior actividade do sistema de recompensa do cérebro das crianças e a um aumento posterior da gordura corporal. A conclusão resulta de um estudo da Escola de Medicina Keck da Universidade do Sul da Califórnia (USC), publicado a 3 de Novembro de 2026 na revista científica JAMA Network Open, que identificou uma possível ligação entre os hábitos alimentares na infância e o desenvolvimento da obesidade.
A investigação acompanhou 46 crianças com idades entre os sete e os dez anos, todas com peso considerado saudável no início do estudo. Os investigadores utilizaram exames de ressonância magnética para observar a actividade cerebral enquanto os participantes visualizavam imagens de alimentos apetitosos, como bolachas e batatas fritas. Foram também recolhidos dados sobre a alimentação, o índice de massa corporal (IMC), a percentagem de gordura corporal e a circunferência abdominal, com novas avaliações realizadas um ano depois.
Os resultados mostraram que as crianças que consumiam maiores quantidades de alimentos ultraprocessados apresentavam uma actividade mais intensa no estriado dorsal, uma região cerebral envolvida nos mecanismos de recompensa e motivação. As respostas mais acentuadas nesta área estiveram associadas a maiores aumentos do IMC e da percentagem de gordura corporal durante o ano seguinte. Ao considerar a actividade cerebral nas análises, os investigadores verificaram que a associação entre o consumo destes alimentos e o IMC diminuía 31%, enquanto a relação com a gordura corporal diminuía 44%.
Segundo Kathleen A. Page, investigadora principal e professora de Medicina e Pediatria na USC, o cérebro infantil encontra-se numa fase de desenvolvimento em que é particularmente sensível aos alimentos e ao ambiente alimentar. A especialista considera que compreender estes mecanismos poderá ajudar a identificar formas de prevenir a obesidade desde cedo. O estudo salienta ainda que os alimentos ultraprocessados representam cerca de 67% das calorias consumidas pelas crianças nos Estados Unidos, sendo frequentemente escolhidos pelo preço, facilidade de preparação e disponibilidade.
Apesar dos resultados, os investigadores sublinham que o estudo é observacional e não demonstra que os alimentos ultraprocessados provoquem directamente alterações cerebrais ou aumento de peso. A equipa pretende realizar novas experiências, disponibilizando alternativas alimentares minimamente processadas às crianças, para avaliar se as mudanças na dieta modificam as respostas cerebrais e influenciam a evolução do peso. Os participantes continuarão também a ser acompanhados durante a puberdade e o início da idade adulta, permitindo estudar os efeitos dos hábitos alimentares na saúde a longo prazo.