Cabo Delgado:”Oito anos de uma guerra esquecida”, entrevista com o Padre Kwiriri Fonseca, missionário da Diocesa de Pemba

Quase oito anos após o início da insurgência armada em Cabo Delgado, o norte de Moçambique continua mergulhado numa crise humanitária profunda, marcada por deslocações em massa, ataques terroristas e uma resposta estatal que muitos consideram insuficiente

A situação tem-se alastrado para províncias vizinhas como Niassa e Nampula, revelando um cenário que continua a fugir do controlo e onde “a população é quem mais sofre, enquanto interesses obscuros perpetuam a violência”, refere o Padre Kwiriwi Fonseca, missionário passionista da Diocese de Pemba, profundamente ligado à realidade no terreno.

Recentemente, um novo ataque terrorista atingiu a Reserva Nacional do Niassa, a maior do país. “Isso provocou muitos deslocados”, afirmou o pároco, que apesar de estar atualmente em Curitiba, no Brasil, continua profundamente ligado à realidade no terreno. “Conheço mais a situação do que quem está lá. Antes de sair, trabalhei com os militares, com os reassentados. Tudo o que acontece, eu sei no preciso momento”.

Em entrevista à E-Global, o missionário falou sobre a grave situação que se vive na região do Norte de Moçambique, que parece não ter fim à vista.

Crise Humanitária sem Precedentes

Estima-se que centenas de milhares de pessoas tenham fugido das suas casas desde o início da insurgência, mas o número real é difícil de apurar. “É prematuro falar em números”, alerta o Padre KwiriwiFonseca.  A razão é simples e dramática — as pessoas fogem não só quando são diretamente atacadas, mas também quando sentem o medo a aproximar-se, porque basta um boato para pôr aldeias inteiras em fuga.

“os insurgentes usam o medo como arma”

“Quando há um ataque, não fogem só os diretamente atingidos, mas também as aldeias vizinhas, por medo. Uma área de 100 km pode ficar deserta em poucas horas, por causa do pânico alimentado por boatos e vídeos intimidatórios disseminados pelos próprios insurgentes”.

Tal como em outros teatros onde grassa o terrorismo, “os insurgentes usam o medo como arma. Espalham vídeos, mensagens, criam pânico, e as populações abandonam tudo. Num raio muito grande, as pessoas fogem por completo.”

Esses deslocados, muitas vezes sem qualquer tipo de apoio governamental, dirigem-se para zonas mais seguras como Lichinga ou arredores de Nampula, onde as condições de acolhimento são precárias. “Precisam de moradia, tendas, comida, roupa, apoio escolar”, apelou o padre. “A comunidade internacional precisa saber que a situação é péssima”.

A Cáritas da Diocese de Pemba, instituição onde o sacerdote trabalha diretamente, continua no terreno, mas com poucos recursos e muitas limitações. “Hoje trabalham com muito pouco. Algumas organizações contratam a Cáritas para distribuir ajuda porque têm estrutura. Mas segundo o diretor, Manuel Nota, os recursos são escassos.”

“A comunidade internacional precisa saber que a situação é péssima”

A Insurgência e os recursos económicos da região: Interesses Cruzados

A exploração de recursos naturais da região levanta suspeitas sobre as verdadeiras motivações por trás da continuidade do conflito. “Cabo Delgado não tem só gás. Tem rubis, madeira, tráfico de droga, de pessoas. Mesmo com a guerra, essas atividades continuam nos bastidores”, afirmou.

E as empresas internacionais que exploram alguns desses recursos, como o gás natural explorado pela empresa Total, parecem não serem afetadas. “A Total nunca saiu. Está bem protegida por militares do Ruanda. Quem sofre é a população”, afirma.

Este desequilíbrio de proteção tem gerado críticas. “Há uma crítica forte de que há mais apoio militar do Ruanda do que do próprio governo moçambicano”, denuncia o padre, apontando que essa disparidade se estende até ao nível de vida dos militares envolvidos.

Desmotivação Militar e Falta de Confiança

Segundo o entrevistado, as Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) enfrentam sérios problemas de motivação. “Eles sabem que os ruandeses têm melhores condições. Não têm meios, não têm motivação. E o povo não confia neles.”

Questionado sobre se isso se deve a falta de capacidade ou vontade política, o padre foi claro: “Temos um governo corrupto. Dizem que não há dinheiro, mas há muitos desvios. Onde está esse dinheiro? Quem o está a desviar?”.

Mudança Política Estagnada

Apesar da recente mudança de liderança no governo moçambicano, as expectativas de transformação são mínimas. “Mudou o presidente, mas não o regime. Nos primeiros 100 dias, muitos críticos dizem que mudou nada. É cedo para se falar de mudanças profundas. Até o Nyusi, no início, prometia transformação”, relembra o missionário.

Para ele, há uma forte continuidade do regime anterior, com pouca ou nenhuma renovação real.

O Norte, acusa, está esquecido por Maputo. “Mesmo após ciclones, o governo levou dias a aparecer. Ainda hoje há pessoas a viver na miséria.” Essa ausência abre espaço para os insurgentes recrutarem, alimentando um ciclo vicioso de violência e miséria.

Sobre o apoio internacional, critica-se a lentidão e a falta de vontade política para resolver o problema. “A vinda dos ruandeses foi decisão particular, não do parlamento. A SADC entrou tardiamente e com atuação fraca.” Questiona-se se realmente há interesse em resolver o conflito.

A Máquina do Terror

O padre alerta que os insurgentes não são desorganizados nem amadores. “Eles têm uma estrutura de comando clara. São bem organizados. Têm logística melhor que a dos militares.”

Questionado sobre o recrutamento, aponta o desemprego e o desespero como fatores determinantes. “Não têm emprego, nem oportunidades. Veêm nos insurgentes uma última alternativa. O destino é quase sempre a morte, mas preferem isso a ficar sem fazer nada”.

Impacto nas Missões e Igreja no Terreno

Mesmo a Igreja, um dos últimos bastiões de apoio social, não escapa aos ataques. Nas zonas onde houve ataques, igrejas foram destruídas e os religiosos e voluntários tiveram de recuar para zonas mais seguras. Ainda assim, a rede da Cáritas continua a operar, mesmo com estradas destruídas, falta de comunicação, colapsos no sistema de saúde e escolas sem professores nem condições.

“Hoje, só algumas zonas de Cabo Delgado, Nampula e Niassa ainda são seguras.”

Um Apelo Urgente

“O primeiro passo é a visibilidade. Que o mundo saiba que há uma guerra esquecida em Moçambique. Já vão quase oito anos. A ajuda é urgente. A Diocese de Pemba está de braços abertos, à espera de apoio para continuar a ajudar a população do Norte de Moçambique”, apela o Padre para todos os que possam ajudar a instituição.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Subescreve a Newsletter

Artigos Relacionados

Moçambique: Daniel Chapo inicia visita ao Niassa e apela à união nacional e ao combate à desinformação

O Presidente da República de Moçambique, Daniel Chapo,...

0

Moçambique: Medo continua a assombrar comerciantes após bárbaro assassinato no distrito de Macomia em Cabo Delgado

O medo de ser atacado, raptado ou ferido,...

0

Moçambique: Funcionários do Município de Mocímboa da praia estão em greve laboral

Funcionários do Conselho Municipal e da Assembleia Municipal...

0