As relações diplomáticas e comerciais entre o Brasil e a China atravessam um dos seus momentos mais significativos desde o estabelecimento dos laços formais em 1974. Hoje, a China é o principal parceiro comercial do Brasil, com trocas que, em 2023, ultrapassaram os 157 mil milhões de dólares, segundo dados oficiais. Um relacionamento sustentado pelo comércio de commodities, investimentos estratégicos e pela crescente cooperação tecnológica, e que ganhou novo fôlego com a visita do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, a Pequim, no início de abril deste ano.
Durante a visita de Estado, Lula foi recebido com honras pelo presidente Xi Jinping, numa agenda intensa que culminou na assinatura de 15 acordos bilaterais em áreas como agricultura, energia, ciência, tecnologia, educação e saúde. No seu discurso, Lula defendeu uma ordem global mais equilibrada e multipolar.
“É preciso criar um novo modelo de governança mundial, onde todas as nações tenham voz e representação. O Brasil e a China têm um papel central nesse processo”, afirmou Lula.
Já o presidente chinês, Xi Jinping, preferiu destacar o potencial transformador da parceria sino-brasileira, ao afirmar que “as relações entre China e Brasil são estratégicas, duradouras e têm grande relevância global”.
“Vamos juntos promover um desenvolvimento mais justo e sustentável”, frisou Xi Jinping.
Apesar do tom institucional elevado, a visita não deixou de contar com momentos menos formais. Um deles protagonizados pela primeira-dama brasileira, Janja da Silva, que, numa tentativa de destacar a importância das redes sociais na comunicação política e institucional, afirmou que “o TikTok é uma ferramenta importantíssima para formar opinião”. A declaração foi interpretada por parte da imprensa internacional como uma gafe, sobretudo por ter sido feita na China, onde a versão global da aplicação é proibida e controlada pelo governo, que mantém uma plataforma própria, o Douyin, com regras estritas de censura.
Em resposta às preocupações levantadas por Janja, o presidente Xi Jinping afirmou que o Brasil tem o direito de regular as suas próprias plataformas de redes sociais, destacando que a China mantém um controlo rigoroso sobre a sua versão doméstica do TikTok, o Douyin. Xi sugeriu que, se o Brasil considera o TikTok prejudicial, deveria adotar medidas de regulação semelhantes às implementadas pela China. Fontes confirmam que a esposa de Xi Jinping, Peng Liyuan, teria ficado “visivelmente incomodada com a quebra de protocolo”, e um ministro chinês também expressou “descontentamento” após as declarações da primeira-dama brasileira.
Apesar do episódio, a viagem teve saldo amplamente positivo, refletindo o empenho do governo Lula em reposicionar o Brasil no cenário internacional, sobretudo em alianças estratégicas com potências emergentes como a China.
Acordos unem “vontades” dos dois países
Durante a visita de Lula à China, foram assinados diversos acordos entre os dois países, que poderão gerar “grande impacto” nas suas economias e na geopolítica global. Os acordos abrangem diversas áreas estratégicas e visam “fortalecer a parceria entre os dois países”.
O setor do agronegócio e da pecuária integra a lista dos principais acordos. Neste sentido, um dos documentos mais relevantes foi firmado entre o Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil e a Administração-Geral de Aduanas da China para “simplificar os processos de exportação de carne bovina brasileira para o mercado chinês, por meio da introdução de uma plataforma de certificados sanitários digitais e da elaboração de uma certificação própria para produtos de origem animal”.
Foi ainda estabelecido um Grupo de Trabalho de Facilitação de Comércio entre os dois países, com a missão de “evitar barreiras desnecessárias ao comércio e resolver obstáculos no acesso ao mercado da contraparte, por meio de diálogo e consultas para melhor entendimento sobre os sistemas regulatórios”.
No que toca à cooperação em Ciência e Tecnologia, os dois países assinaram acordos para “promover a cooperação, incluindo o desenvolvimento conjunto de pesquisas e inovações tecnológicas”, com destaque para a continuidade do programa “Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres” (CBERS), com o planeamento do lançamento do CBERS-6 até 2028.
Em relação à energia e mineração, os acordos foram firmados para “fortalecer a cooperação, o desenvolvimento sustentável e a segurança energética de ambos os países”. Nesses acordos estão incluídas parcerias para a “exploração de recursos minerais e investimentos em infraestrutura energética”.
Temas como educação e cultura também ganharam espaço nas novas conversações entre brasileiros e chineses. Ficou estabelecido que haverá “intercâmbios educacionais e culturais, com o intuito de fortalecer os laços entre as populações dos dois países”, parcerias que contarão com programas de bolsas de estudo, intercâmbio de estudantes e cooperação entre instituições de ensino superior.
Já na saúde, Brasil e China decidiram por estratégias comuns no desenvolvimento de pesquisas médicas e a troca de experiências em políticas de saúde pública. O intuito é “melhorar a capacidade de resposta a emergências sanitárias e fortalecer os sistemas de saúde dos dois países”.
Para especialista em comércio internacional e relações internacionais, as parcerias consolidadas “abrangem áreas fundamentais para o desenvolvimento económico e social de ambos os países, além de reforçar a importância do multilateralismo e da cooperação internacional, num contexto global de desafios complexos e interconectados”.
“A visita de Lula à China e a assinatura desses acordos representam um passo significativo na consolidação de uma relação bilateral sólida e mutuamente benéfica, com potencial para contribuir para a estabilidade e prosperidade global”, frisou fonte do governo brasileiro.
Ígor Lopes