Brasil: Conceição Evaristo e Scholastique Mukasonga avaliam “reparação” durante festival literário

As escritoras Conceição Evaristo, do Brasil, e Scholastique Mukasonga, do Ruanda, protagonizaram um encontro histórico no Palácio de Cristal, na mesa de encerramento da segunda noite do Flipetrópolis, realizada no final da semana passada, no Rio de Janeiro.

Com a medição do jornalista Jamil Chade e com tradução de Leonardo Assis, de forma leve e com grande cumplicidade, abordaram temas como “reparação”, após a opinião do Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, tornada pública nos últimos dias.

Num auditório lotado e com a presença de grande parte dos escritores convidados do Festival, abraçaram-se no reencontro Brasil e África, através da literatura.

“O Brasil tem o seu corpo na América e a alma na África. Estamos reunindo aqui duas gigantes desses dois continentes, diria gigantes da humanidade”, dimensionou Jamil Chade sobre o que a plateia testemunharia nesta noite.

“Estou emocionada! A minha irmã aqui ao meu lado, que nasceu do outro lado do Atlântico. Vou repetir a frase de Paulina Chiziane que diz que somos irmãs separadas pelo Atlântico”, disse Conceição em acolhimento a Scholastique.

“Reparação” foi o primeiro tema abordado pelas escritoras, a partir da declaração do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa que, recentemente, reconheceu os crimes do período colonial. A conta financeira de três séculos de exploração e assassinatos de povos africanos não se pode mensurar, avalia Conceição Evaristo. A riqueza do continente europeu foi construída a partir da colonização e se estende na atualidade com o neocolonialismo. “Não tem como devolver para o continente africano o que foi roubado e espoliado”, destacou a escritora.

A reparação verifica-se no campo simbólico, e a escritora brasileira defendeu que Portugal poderia adotar medidas inspiradas nas políticas de ações afirmativas brasileiras. As duas concordam que não cabe perdão à atrocidade que foi o sistema económico escravista. “O perdão pode apaziguar o remorso de quem fez, mas não apazigua a dor de quem sofreu e vive todas as suas consequências”, avalia Conceição.

Scholastique endossou as palavras da irmã nas Letras e acrescentou uma camada ao debate: a necessidade de reconhecimento da autonomia e autodeterminação dos povos africanos. Desde 1960, quando os países africanos conquistaram a independência tardia, a colonização foi substituída por formas de cooperação que, na avaliação da autora tutsi, não deixa de ser uma tutela, uma nova maneira de exercer a dominação.

“A gente gostaria de não ser tratada como crianças incapazes e dependentes numa dominação sob a forma de proteção. Ditadores estão lá – em países africanos – com apoio dos ex-colonizadores”, afirmou Scholastique.

Haverá a reparação algum dia, mas as autoras reconhecem que é um processo muito lento, lembrando que só recentemente a Inglaterra iniciou a devolução de objetos roubados dos países africanos.

A imagem de uma África mítica marca a escrita dos primeiros autores negros no Brasil, o que Conceição entende como um momento necessário de auto-afirmação de saberes e de uma dignidade roubada pela escravidão. “O que nos alimentava era afirmar essa África mítica. A nossa Pasárgada”, disse Conceição em referência ao que chamou de mito de fundação dos povos negros no Brasil.

Ígor Lopes

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