Em entrevista à e-Global, Afonso Justino Waco defende a autodeterminação, critica o MPLA e confirma que o projeto de um Governo de Cabinda no exílio permanece ativo.
O Alto Conselho de Cabinda (ACC) admite abandonar a sua postura exclusivamente negocial e endurecer a estratégia perante o silêncio das autoridades angolanas. A posição foi assumida por Afonso Justino Waco, coordenador da Comissão Política, responsável pela organização e porta-voz do ACC, numa entrevista à e-Global em que deixou em aberto o apoio às estruturas que mantêm uma luta armada pela independência do território.
Pastor cabindês exilado na Dinamarca, Afonso Justino Waco afirmou que o ACC continua a privilegiar uma solução negociada com Luanda, mas considerou que os esforços desenvolvidos desde a fundação da organização, em 2019, não obtiveram resposta. Segundo o dirigente, o entendimento poderia conduzir a um estatuto transitório de autonomia ou, em definitivo, à independência.
A ausência de diálogo, advertiu, está a aproximar o Conselho de Direção de uma posição mais radical. “Nesse contexto, o ACC está disposto a mudar o seu discurso e a passar de uma postura pacífica de negociação para uma posição mais radical. Não digo violenta, porque não temos qualquer intenção de pegar em armas. Falamos de procurar uma solução radical para o problema.”
Waco foi ainda mais longe ao admitir a possibilidade de aproximação às organizações armadas. “Se isso não acontecer, estamos disponíveis para apoiar e reforçar, se necessário, aqueles que defendem que Cabinda deve ser libertada pelas armas. Nunca condenámos essa posição, porque entendemos que todos os meios são legítimos quando correspondem às aspirações do povo de Cabinda.”
As críticas de inatividade dirigidas ao ACC foram igualmente rejeitadas. Waco sustentou que a organização permanece sólida, conserva grande parte dos quadros fundadores e é atualmente dirigida, de forma colegial, por sete responsáveis. A menor exposição pública, explicou, resulta de uma opção deliberada. “Quando não há nada de novo, não precisamos de inventar peças ou acontecimentos apenas para fazer barulho. A política da demagogia não é uma política com a qual colaboramos.”
Sobre as próximas eleições angolanas, distinguiu a solidariedade com os cidadãos de Angola da posição que assume relativamente a Cabinda. “Para mim, Cabinda não é Angola, nunca foi Angola e nunca seria Angola se não fosse a imposição pelas armas e a violação dos direitos do povo cabindês.”
O dirigente reconheceu aos angolanos o direito de procurarem uma mudança política, mas lançou uma acusação direta ao partido no poder. “Digo-o com muita pena, o regime do MPLA apodreceu Angola e os angolanos através da má governação daqueles que julgam ser proprietários do país.”
Waco entende que as eleições organizadas por Luanda não resolvem os problemas políticos e de governação de Cabinda. Embora considere que os cabindeses não deveriam participar no escrutínio, recusou transformar essa posição num apelo ao boicote. “Ainda assim, não vou pedir ao povo de Cabinda que boicote as eleições. Trata-se de uma escolha livre de cada pessoa que vive no território e cada uma decidirá se participa ou não.”
No plano institucional, o porta-voz do ACC confirmou que o projeto anunciado em fevereiro, em Bruxelas, após a declaração unilateral da independência de Cabinda, não foi abandonado. A iniciativa prevê a criação de um Parlamento cabindês no exílio, que deverá conduzir à formação de um Governo de Cabinda também no exílio.
“Há quem pense que o projeto nasceu e morreu, mas não morreu”, disse. O processo permanece numa fase de informação, sensibilização e auscultação de organizações e personalidades políticas. O objetivo, explicou, é evitar que a estrutura seja construída por apenas duas ou três pessoas e garantir a participação da maioria dos atores políticos cabindeses. Só depois dessa consulta o ACC e os restantes apoiantes deverão decidir conjuntamente a criação do Parlamento e do Governo.
Afonso Justino Waco abordou também o seu livro “Resistência, Direito e Dever – O Caso do Enclave de Cabinda”, obra apresentada em Lisboa a 13 de junho de 2026 e baseada numa dissertação concluída em 1991, em Kinshasa. Para Waco, a persistência do empobrecimento, dos problemas económicos e das questões de segurança confirma a atualidade do diagnóstico patente na sua obra. “Costumo dizer que Angola não conseguiu desmentir-nos mais de trinta anos depois. Muito pouca coisa mudou.”
Na análise à fragmentação que marca os movimentos cabindeses, reconheceu que a tentativa de reunir as organizações na conferência realizada no Gana fracassou devido à ausência de estruturas importantes, designadamente as fações armadas da FLEC. Atribuiu as dificuldades posteriores ao protagonismo das lideranças, embora tenha apresentado os quadros do ACC como a principal força da organização.
Waco rejeitou, contudo, qualquer monopólio sobre o processo político. “Não acredito que a independência de Cabinda possa ser conquistada por uma única organização. Uma solução para Cabinda, seja a independência ou a autonomia, só poderá ser alcançada através do trabalho conjunto de todas as organizações.” A mensagem final condensou a sua leitura sobre o impasse. “Cabinda não será libertada por uma única organização. Ninguém tem força suficiente para libertar Cabinda sozinho. Lamento dizê-lo, mas essa é a realidade.”
RN