As constantes interrupções no fornecimento de energia elétrica continuam a gerar descontentamento na ilha de Santiago. Nas ruas, mercados e bairros, as reclamações são cada vez mais fortes. Vendedeiras, estudantes, empresários e donas de casa dizem estar cansados de viver entre apagões e prejuízos.
No mercado, o ambiente é de frustração e perda. “Olha, `nha fidjo´, isso já é demais! Ficamos sem luz quase todos os dias. O peixe estraga, o gelo derrete, e quem perde é a gente”, desabafa Dona Fátima, vendedeira há mais de 15 anos. “Pagamos caro pela luz, e mesmo assim ficamos no escuro. A Edec tem de respeitar o povo.”
A situação repete-se em várias zonas. Em Achada Mato, Dona Lina conta que já não consegue manter os produtos frescos. “Quando a luz some, o contador continua a girar como se nada fosse. Parece brincadeira”, lamenta.
Os estudantes também se queixam, dizendo que os cortes de energia estão a prejudicar o rendimento escolar. “Ontem estava a fazer o trabalho de grupo e bum! A Luz foi-se. Fiquei no escuro até quase meia-noite”, conta Kelvin, aluno do Liceu Amílcar Cabral. “Aqui quem quer estudar tem de ter lanterna ou vela em casa. É triste, mas é assim.”
Entre os empresários, o sentimento é de revolta e desespero. Júlio Lopes, dono de uma pequena padaria, diz que já perdeu muito dinheiro. “Cada vez que a luz vai, o forno para e o pão estraga. Tenho de ligar o gerador e gastar gasóleo, que está cada vez mais caro. O lucro desaparece e o cliente não entende. Precisamos de estabilidade e respeito.”
Nas casas, o impacto é direto e diário. Dona Albertina, moradora de Achada Grande, fala do desespero das famílias: “Sem a luz, nós não conseguimos fazer quase nada. Frigorífico desliga, a comida estraga, máquina de lavar para, e as crianças ficam impacientes. A casa quente e escura, porque não temos como ligar ventiladores. Só Deus para nos ajudar.”
De norte a sul de Santiago, o sentimento é o mesmo: cansaço, indignação e um apelo por soluções urgentes. A população pede mais responsabilidade e transparência no serviço prestado pela empresa de energia. E constata-se várias indignações pelas redes sociais.
Enquanto isso, o povo continua a adaptar-se — com velas, lanternas e muita paciência — numa rotina em que a escuridão já se tornou parte do dia-a-dia.
“A luz não pode ser luxo. É uma necessidade básica”, resume um morador, dando voz a um problema que, para muitos cabo-verdianos, já passou dos limites.