A direção do PAIGC e o denominado Grupo de Reflexão chegaram a um entendimento político para desbloquear a realização do XI Congresso do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde, previsto para este ano, num momento de forte tensão interna e de elevada pressão sobre a maior formação histórica da Guiné-Bissau.
O anúncio foi feito pelo porta-voz do PAIGC, Muniro Conté, através de uma publicação na sua página oficial no Facebook. Segundo o dirigente, o acordo representa um primeiro passo para garantir que o congresso extraordinário dos “libertadores” decorra em conformidade com os estatutos do partido.
A solução em discussão passa pela criação de uma comissão organizadora inclusiva, cuja composição deverá ser submetida à aprovação do Comité Central, órgão máximo do PAIGC entre congressos. A imprensa guineense avançou que a Comissão Permanente do partido aprovou, a 12 de maio, uma proposta de Comissão Nacional Preparatória do XI Congresso, bem como o termo de compromisso assinado, a 8 de maio, entre a Comissão de Diálogo Interno e o Grupo de Reflexão.
O entendimento surge depois de semanas de tensão entre a direção liderada por Domingos Simões Pereira e a ala contestatária, que tinha anunciado a intenção de organizar um congresso extraordinário nos dias 9 e 10 de maio. O Grupo de Reflexão acabou por adiar a iniciativa, invocando as restrições impostas pelas autoridades às atividades com grandes aglomerações e a necessidade de prosseguir diligências para alcançar consensos mais amplos.
“Foi alcançado o entendimento desejado para a realização do XI Congresso do PAIGC em conformidade com os Estatutos. É o primeiro passo, pelo que apelamos à calma, compreensão e ponderação. Como sempre, PAIGC será o grande vencedor”, escreveu Muniro Conté na sua publicação.
Apesar do tom conciliador, os termos concretos do acordo ainda não foram integralmente divulgados. Entre os pontos sensíveis estão a composição da comissão preparatória, a participação dos dirigentes ligados ao Grupo de Reflexão, a validação estatutária pelo Comité Central e a calendarização final do congresso.
O processo decorre num contexto particularmente delicado para o PAIGC. Domingos Simões Pereira, presidente do partido, encontra-se em prisão domiciliária depois de ter sido detido na sequência do golpe militar de novembro de 2025. A Comissão Permanente do PAIGC voltou a exigir a sua libertação plena e a reabertura da sede nacional e das sedes regionais do partido, encerradas num contexto de forte restrição à atividade política.
O XI Congresso deveria realizar-se em novembro de 2026, mas a direção do PAIGC pretende antecipar a reunião magna para o segundo semestre deste ano, perante o novo calendário político anunciado pelas autoridades de transição, que prevê eleições gerais para 6 de dezembro.
A aproximação entre a direção e o Grupo de Reflexão poderá, assim, evitar a realização de congressos paralelos e reduzir o risco de fratura formal no partido. Ainda assim, a disputa pela legitimidade interna permanece aberta, num cenário em que o PAIGC tenta preservar a sua unidade orgânica, recompor a sua capacidade de mobilização e preparar-se para um ciclo político decisivo.
A crise interna opõe, de um lado, a direção formal do PAIGC, liderada por Domingos Simões Pereira, que reivindica a legitimidade dos órgãos estatutários e defende que qualquer congresso deve ser convocado e validado pelas estruturas próprias do partido.
Do outro lado está o Grupo de Reflexão para a Renovação e Salvação do PAIGC, formado por dirigentes e militantes críticos da atual liderança. Este grupo integra figuras que permaneceram no Governo depois da dissolução da maioria PAI-Terra Ranka, em 2023, e membros do atual executivo de transição nomeado após o golpe militar de novembro de 2025.
A direção acusa os contestatários de tentarem “assaltar” o partido por via de um congresso paralelo, enquanto o Grupo de Reflexão sustenta que a atual liderança perdeu condições políticas para continuar e afirma ter reunido as assinaturas estatutárias necessárias para convocar a reunião magna.
O entendimento agora anunciado não elimina a disputa, mas pode transformar uma confrontação aberta numa negociação interna institucionalizada. O verdadeiro teste será a validação pelo Comité Central e a capacidade das duas alas aceitarem uma comissão preparatória reconhecida por ambas.